Ficções

De repente, lembro que sou escritora, e então dá uma saudade lancinante de mim mesma, de forma que lá vai fragmento duma novela, com o título abaixo, publicada em meu Toda Prosa II – Obra Escolhida, Record, 2008.

TODOS OS AMORES

“e escreverei te quiero nas águas do mar”
de um filme esquecido

– É aquele. Se não for ele não será nenhum outro – disse à Amanda, casual testemunha que me acompanhava e que de modo algum poderia prever (como sequer eu mesma naquele dia) que esta não seria mais uma das tantas escolhas no âmbito dos homens presentes numa galeria de arte, mas que, insuspeitadamente, iria abranger todo o meu horizonte de homens.

A galeria se desdobrava em assimetrias, contornando desvãos e desvios até convergir num pátio com tanque central onde imprevistamente se chegava ou não. Havíamos completado a terceira volta, pois, afinal de contas, era sempre possível retornar ao mesmo ponto, quer dizer, ao vestíbulo onde vi Marco, que me pareceu então muito jovem, enquanto eu o observava conversando com uma mulher, já sentindo a cutilada do medo por baixo do frio desdém com que dizia à Amanda, mas é tão jovem, presumivelmente a razão de ter tomado outro gole de uísque, outro bom gole, relanceando distraidamente um olhar pelos quadros.

Bom, deviam ser quadros, uma galeria de arte é um lugar onde sempre há muitíssimos quadros, ainda que não se pudesse ter certeza, uma vez que ocorriam, bem me lembro, aqui e ali, elementos a serem descritos talvez mais corretamente como intervenções, ou seriam instalações e, por que não, ocupações? É moda redefinir quase tudo e particularmente isto para o que me faltam palavras, que sempre sobram nos catálogos, descrevendo o nada, todavia estes elementos pendurados e imóveis, para as quais continuam faltando substantivos à medida que se multiplicam adjetivos, claro, sempre disponíveis na caixinha de primeiros socorros e boas maneiras e outro gole reforçado e completava-se mais uma volta.

Novamente eu retornava ao vestíbulo e lá estavam os olhos negros, estreitos, arredios, pontas de alfinete deslizando velozmente entre o rosto da interlocutora e o carrossel dos que passavam, cores e volumes que seus olhos velozes riscavam, portanto seria inútil que eu, mesclada à massa cambiante, tentasse retê-los, melhor aproveitar a invisibilidade para observá-lo ( a palavra seria tocaiá-lo), como um tigre espreitando o veadinho à beira do lago banhado pelo luar africano (sinceramente eu devia escrever novelas de aventura), avaliando os ombros sob a  camisa branca, acariciando-os de longe, como as velas dum navio que se abandona aos invisíveis braços do vento, as calças de marinheiro insuportavelmente sugerindo tendões e virilhas, os dedos inquietos, nervosos, mergulhando na corredeira dos cabelos com a mesma mão que agora descia, capturava um cigarro no bolso e o acendia distraidamente, concentrado numa conversa interminável, quando de repente pareceu estacar.

Irresistivelmente atraído por meu lento olhar duplo, deteve-se na boca da mulher que, num relance, reconheceu – imprevista como um presságio – mas ela já desaparecia entre os convidados. Voltaria?  Imóvel em meio ao diálogo interrompido, atento aos sons e perfumes indistintos, ainda inconsciente do que viria, mas já trêmulo e excitado.
Como alguém que pressente o mar.

Ao longe, ela o viu avançando em sua direção, ansiosamente, os olhos estreitos, vesgos, indecisos, cegos, velozes, girando em falso: seria medo? De mim?

– Não de você, idiota – disse Amanda –, possivelmente de Diana Marini.

Mas ele já estendia a mão, sorria.

– É Marco – reconheci. E Amanda:

– Então se já o conhece, liquide-o.

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