Ficção econômica

Ivo Barbiero*

A temida bolha da economia brasileira, propalada por alguns alarmistas, pode ser classificada como obra de ficção econômica. Na prática, os índices de inadimplência mantêm-se em parâmetros ainda seguros e não ameaçam o sistema financeiro e nem a liquidez das empresas.

O cenário atual do Brasil nada tem de semelhante com a conjuntura dos Estados Unidos em 2008, epicentro da grande crise mundial. Naquela oportunidade, após três décadas de formação, existia imensa quantidade de títulos sem lastro, muitos deles atrelados ao mercado imobiliário. Eram papeis podres, assim como seus derivativos, que foram sendo rolados no mercado financeiro até um limite absurdo. Quando não houve mais como honrá-los, o sistema implodiu, gerando uma quebradeira em série. O fim da história, todos conhecem.

Em nosso país, inclusive em função dos controles mais adequados e rígidos sobre o sistema financeiro, nem de longe há qualquer semelhança com o ocorrido no mercado norte-americano. O que temos é um pequeno avanço da inadimplência das pessoas físicas, em proporções ainda não preocupantes. Há, ainda, um crescimento da inflação, provocado, principalmente, pelos chamados valores indexados, constituídos pelo conjunto das tarifas públicas (água, energia elétrica e telefone), aluguel, anuidades escolares e o aumento do salário mínimo, além da significativa majoração das commodities e dos alimentos.

Contudo, para se entender melhor a realidade do que está ocorrendo no Brasil e constatar que não se trata de bolha, é necessário analisar com mais atenção algo inerente a um aspecto muito peculiar de nossa cultura: a despreocupação quanto ao preço real de alguns bens, em especial eletro-eletrônicos, móveis, imóveis e veículos. A decisão de compra baseia-se, prioritariamente, na capacidade orçamentária mensal de pagamento das prestações. Soma-se a isso a formidável inclusão de 50 milhões de pessoas no mercado consumidor desde 2003, ávidas, com justiça, por usufruir de sua ascensão econômica.

Em síntese, o país tem um crescente mercado consumidor, muito disposto a adquirir bens, desde que haja crédito disponível e capacidade de honrar as parcelas. Como no capitalismo, considerando a inexorável lei do mercado, o limite dos valores das transações é estabelecido por quem compra e não por quem vende. Não há dúvida de que vivemos uma conjuntura de sobrevalorização dos preços, que se soma aos fatores inflacionários. Mesmo pagando os juros reais mais altos do mundo, continuamos consumindo. Isso explica recentes dados comparativos divulgados pela imprensa, de que São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília já têm preços maiores do que algumas das maiores e mais importantes cidades do Hemisfério Norte.

A efetiva solução dos problemas exige foco muito firme na realidade. É infrutífero tratar de questões hipotéticas ou fictícias. Afinal, enquanto se perde tempo com a ficção, podemos ser atropelados pela indesejável realidade dos juros altos e da inflação.

*Economista, é presidente da proScore, Bureau de Informação e Análise de Crédito

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