Fenômenos ocultos da criação literária

Muitas vezes eles se ocultam até do próprio escritor, que os realiza intuitivamente, sem meditar a respeito, isto é, se perguntar por que certos recursos “funcionam” ainda que aparentemente devessem produzir o efeito inverso, ou seja, “não funcionar de forma alguma”.

Por exemplo, uma das coisas mais difíceis para qualquer escriba é iniciar um texto. No caso do escritor, que tem uma massa de informações a passar, o problema surge de cara: “Como começar a contar?” Se eu não sei exatamente ainda o quê, como e por que PRECISO contar isto? (porque o fato é que eu PRECISO contar isto, malgrado as razões me escapem, só vou entendê-las, escrevendo, não adianta PENSAR a respeito). Afinal, literatura é ação/realização.

Bom, conforme o exemplo abaixo, na novela “Sodoma de Mentiras” (in Toda Prosa II, Record, 2008), eu resolvi o problema tornando-o “literal”. Em duas laudas, “tento” começar a contar a história de Natan a partir dum rodear dessa “compacta montanha negra de informações mudas”, puxando todas as impressões que me vinham, mesmo que desconexas, mesmo que parecessem digressões do que realmente seria contado adiante, como algo fora do “tema” central.

Mas este cerco ao problema não só me levou diretamente ao núcleo da história, como tornou-se ele próprio uma espécie de metáfora formal do problema (de como começar a contar), fazendo o leitor ter a mesma dificuldade na leitura desse texto quanto eu tive para escrevê-lo; fazendo-o sentir na própria pele a minha angústia e o meu desespero nessa abordagem, enfim, tornando-o meu “cúmplice”.

Outro dado importante: assim é que, como sempre em literatura, forma e conteúdo se tornam uma só e mesma coisa, ou seja, a “dificuldade de começar” e o texto espesso, hesitante, desconexo.

Porque, diferentemente dum texto ensaístico ou jornalístico, que envolve o leitor pela razão, o texto literário é arte porque atinge o leitor pela emoção. Os parágrafos abaixo dão (devem dar, creio) esta idéia, malgrado façam parte duma longa novela, com 30 laudas no original.

“SODOMA DE MENTIRAS

1

Começar a contar pode significar pensar em Natan ou então naquelas janelas só vidro e aço que circundavam o apartamento transformando-o numa espécie de vitrine ou aquário; em certa manta escocesa amarrada ao pescoço ou num quadro de Renoir; começar a contar pode significar começar a puxar todos esses trapos de lembranças e tentar coagulá-las, dar-lhes um nome, uma forma, um significado, explicar o que ocorreu através dessa escultura de palavras, tatear as razões, os porquês de tantas vidraças nuas e tantos quadros no chão e tanta acidez gástrica produzida por tantos cafés e tantos cigarros e o cheiro do onanismo sobre lençóis listrados azul e branco; começar a contar sem emoção, com fluidez aquática e submersa, o que começou no dia 9 de maio e terminou a 27 de junho, entre as primeiras mechas e o derradeiro rabear do signo de Gêmeos.

Contar o recheio desses dias e dessas noites não sem antes assentar pilares bem definidos de tempo, início e fim, simplesmente só para poder então se meter no meio como entre as capas de um livro de histórias de fadas e mergulhar nelas e esquecer a realidade porque essa história não se deixa contar a partir da realidade uma vez que história e lenda e ficção e para crianças dormirem logo deliciosas mentiras com gosto de licor de tangerina – morno farol sobre uma esquecida mesa de carvalho – enquanto bocas mordiam bocas com o hálito do amor dentro dessa redoma durante exatamente sete semanas, que também é conta de mentiroso e por que não?

Contar é também mergulhar nessa matéria, obter a zona perdida onde mentiras se transformam em verdades solenes e o desejo em preces embriagadas não obstante meu duende estar rindo lá embaixo, sem saber que eu, nas nuvens de um sétimo andar, nessa redoma, sodoma de mentiras, já terei salgado tudo ao redor.

Porque, veja bem, meu querido, estou dando um tiro nisso tudo, cortando minha retirada, queimando a cidade por onde deveriam seguir-me tuas tropas, passando depois o arado nos campos e salgando-os porque não quero deixar esperança – a puta vestida de verde – nenhum rabo, nenhum inseto, nenhuma antena se movendo, nada e mesmo estar escrevendo a respeito, este exercício asmático e estéril, sobre um passado que não lembro, um futuro que não me importa, é perpetuar este presente de dúvidas claudicantes onde você se move (sim, porque você está do lado da lâmina, é só aumentar a potência das lentes do microscópio) e, veja, sempre para dentro, encaracolando-se cada vez mais para dentro, absorvendo seus próprios humores, cego, mudo, surdo e frio, como um peixe das regiões abissais do oceano, o meio ambiente apenas como extensão da tua dor e do teu prazer, esbarrando assustado em outros peixes cegos, surdos, mudos e frios (a luta no espelho, a eterna luta do macaco no espelho), esborrachando o focinho na parede de vidro que foi retirada do aquário há quarenta e cinco anos.

2

Todavia é preciso começar a contar, construir o edifício pouco a pouco e eu não o imagino como esses prédios elevadíssimos, rarefeitos, desumanamente simétricos, ou uma casa de campo, com seus dálmatas, crianças rosadas e sebes (esta palavra tão inglesa), ao alcance de qualquer comercial de margarina; tampouco o vejo como um castelo europeu, constante de todos os guias turísticos, bastando algumas horas de avião, um táxi e um bom par de pernas para conferi-lo, registrá-lo, catalogá-lo na memória – e esquecê-lo. Não.

Será como uma pequena e secreta capela espanhola que existe muito mais em meu coração que nos becos de Sevilha. E meu coração não conhece Sevilha, não precisa conhecer Sevilha nem qualquer cidade do mundo.

De arquitetura espanhola, guardo vagas impressões (possivelmente via Hollywood, Carmem, Sangue e Areia, mas não importa) de pátios internos, baixas e sólidas construções ensolaradas, caiadas de branco, balcões, terraços, muitos arcos e nichos, azulejos azuis, portais em ferro trabalhado, e um pouco de tudo isso eu colocarei na minha capela, mas meu maior carinho, maior amor, será para os vitrais, que poderão representar alegorias fúnebres – o leão deitado ao lado da espada partida – em memória ao guerreiro morto, ou mosaicos em perturbadoras composições de formas e cores que produzirão feixes de luz dispostos de maneira a desorientar infinitamente a monótona sequência do espectro, pois a mim caberá iluminar minha capela, onde não quero portas de carvalho com dobradiças de ferro, e sim um portal encimado por pontas de flecha, que a manterá fechada e alerta e revelando seu íntimo esplendor, seus efêmeros jogos de luz e sombra, os nichos no interior dos arcos que conterão os vitrais, este trabalho de ourivesaria, e isso explica porque me detinha obsessivamente todas as segundas e quartas ao anoitecer diante da vitrine de Natan joalheiro (e o nome já não me surpreende, é o teu verdadeiro nome, tua forma, teu significado), atraída por aqueles pequenos relógios sem números, só ponteiros, agulhas indicando um vago tempo dentro do minúsculo universo de vácuo de cristal dourado.

Um dia o sr. Natan também irá eliminá-los, disse ao vendedor que me fitou surpreso, alçando tão suavemente a arqueada sobrancelha loura como impelida pelo sopro de um anjo: mas, madame pode observar que é uma verdadeira jóia.

Debaixo dos anjos, os verdes olhos britânicos: acho que tem razão, o tempo não tem mesmo muita importância, sorri fazendo girar entre os dedos um magnífico topázio, como o olho de um tigre: não posso comprá-lo, obrigado. Ele assentiu, britanicamente, guardou as peças e a partir desse dia não voltei mais àquela vitrine, esqueci os relógios sem ponteiros, os olhos britânicos, doces anjos de Ifigênia.

Embora ainda não soubesse, já despontara a secreta capela espanhola em meu coração: Natan, o olho de tigre, os relógios, foram os abalos sísmicos que desobstruíram a canalização subterrânea, libertando o fluxo de consciência que sangraria pelos secos esgotos de Sodoma e que deságuam num mar interior que o coração desconhece.”

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