Especialista do inconfessável

Desde a morte anunciada do “intelectual público” – aquele que opinava sobre assuntos que não eram da sua conta – e a instauração, pela direita, do “especialista”, cada vez mais, o outro – se escritor ou artista ou intelectual – têm ocupado, no espaço e na cena pública, o papel do que eu chamo de “especialista do inconfessável”. O sujeito a se imolar publicamente, o neguinho a dizer que “o rei está nu”, aquele a tocar em assuntos ditos “tabu” (que, atualmente, dados os altíssimos níveis de mediocridade, acrescidos à celebração da ignorância como “qualidade”, são inúmeros).

A exemplo da questão da proibição da venda e prescrição das anfetaminas (anfepramona, femproporex) pela Anvisa em todo o território nacional, ora sendo contestada na justiça pelo Conselho Federal de Medicina.

Sem entrar no mérito de tal questão, mas sendo eu mesma usuária pública e confessa, em prosa e verso, da referida substância – o popular “speed” – , tanto que se tornou objeto duma recente novela minha, O Quinto Elemento – inicialmente escrita de encomenda e publicada na antologia Tarja Preta (Objetiva, 2003) e republicada em meu Toda Prosa II – Obra Escolhida (Record, 2008).

De forma que, à guisa de depoimento (na pior das hipóteses), na melhor, de dupla “curtição” de speed e literatura e de como ambos podem ser uma só e a mesma coisa, dependendo do ponto de vista (a associação do ritmo rapidíssimo da minha linguagem ao efeito da droga como “achado” estético), lá vão alguns trechos:

O Quinto Elemento

Parte I

“Na minha fenomenologia as anfetaminas são o quinto elemento, e como não se fica pensando no ar que respira, nem na água ou na luz, nunca penso nelas, uma vez que a ingestão diária (mínima) de 100 mm é inevitável como o sol nascer todas as manhãs. Mas nem sempre foi assim. Durante meus primeiros vinte anos de vida elas simplesmente não existiam, portanto não são como o universo e a eternidade, tiveram um começo.

Aos vinte anos eu namorava um cara muito rico, gordo e careta, careta num sentido de usar umas roupas caretas, falar com sotaque da Moóca, o protótipo do paulistano babaquara de arrepiar, mas que basicamente era um maluco absoluto, alcoólatra e devastador, um sujeito radical enfim, fundamentalista em Cristo, em Camaros vermelhos, em Paris, radical em certa inocência e perversidade básicas (iguais às minhas), e naturalmente em dietas para emagrecer. Foi aí, começou aí.

Porque não existe força de vontade, percebem? William Burroughs (os mais junkies aí devem ter lido WB), viciado em heroína, disse precisamente isso: que para o Dr. Dent, de Londres, médico que o curou com apomorfina, força de vontade realmente não existe, você tem que chegar a um estado mental em que não quer ou não precisa da droga que for. O mesmo a respeito da fome, abolida pela anfetamina, um euforizante que além de liquidar a fome te deixa feliz, pleno, esperto, lúcido, maravilha.

Maravilhosamente travados passávamos o dia com meio bife e duas folhas de alface. Engolidos, aliás, com certa dificuldade. Fora isso, estava tudo perfeito, para mim, mas para Alvim – o namorado bem rico, gordo (mas emagrecendo a olhos vistos), maluco e fundamentalista e que era também alcoólatra e devastador desde os 14 anos, as coisas começaram a ficar ligeiramente alteradas uma vez que ele esqueceu de abolir o litro de uísque da dieta, porque as anfetaminas não liquidam a sede, ao contrário, incrementam a boca seca – aliás, a sensação de boca seca é um dos únicos colateral damages do bichinho – e infelizmente no caso do Alvim, meio que beirando o letal essa associação de speed, uísque e fundamentalismo, isto é, ele ficava letal, perigosíssimo, querendo jogar o Camaro contra penhascos, isso quando não me associava a Maria Madalena, incitando apedrejamentos em praias, restaurantes, discotecas, coisas do tipo, havia toda uma liturgia.

Mas aos vinte e três anos não se acha nada engraçado, a falta de cultura exclui o senso de humor, tende-se para o trágico e fazer drama de tudo (claro que lá no fundo JAMAIS me ocorreria ficar com aquela hecatombe masculina), mas sempre fui uma garota demasiado pragmática, pois havia a questão do aluguel e da faculdade que Alvim me pagava, sem contar as roupas de Courréges e Paco Rabanne que me trazia de Paris, assim o que eram uns penhascos e uns apedrejamentos a mais ou a menos se era tudo o que eu tinha que engolir, afinal não eram apenas alucinações, isto é, de mentirinha?

Naturalmente, nessa fase das alucinações e do pragmatismo já não havia amor, porque eu apenas era jovem, mas não estúpida, e quanto a Alvim, este sobretudo era rico, o pai era rico, o avô fora rico, etc., várias gerações sem preocupações com a sobrevivência, e isto abria um abismo entre nós. O que me permitia dar o fora sem muitos escrúpulos. Por isso, como o coveiro nos dramas elisabetanos, Alvim cumpriu seu papel introdutório e desapareceu de cena.

Então me pergunto: será assim tão absurdo intentar uma exposição de motivos, inventariar minhas escolhas, descrever como foi se estruturando um desígnio a partir de um dos periféricos de sustentação?(porra, se não é um bom nome para as anfetaminas).

A palavra talvez fosse cristalização para descrever o processo. Porque elas funcionam como catalisadores que interligam os elementos pré-existentes, vinculando-se e vinculando-os entre si, promovendo uma síntese única para tornar manifestas nossas luminosas qualidades.

Isoladamente, em meio árido, são como notas mudas – nada fazem, nada transformam, não se manifestam, silêncio absoluto. Combinadas, operam maravilhas – ou catástrofes (vide Alvim).

Absolutamente não são mágicas, mas algo em mim as tornava magnéticas (algo a ver com o talento inato para a literatura, ressoando ocultamente do passado e já avançando para um hipotético futuro e, desta vez, como um desígnio) e eis que mil nadas existenciais – desses que a gente não lembra e jamais esquece – começaram a fazer sentido, saltar sozinhos, alados, vindo, um após o outro, prender-se ao bico imantado da minha bic, em fila interminável e trêmula de significação.

Que fique bem claro: não estou fazendo a apologia de porra nenhuma, até porque anfetaminas é preciso merecê-las. Mas insisto: terá esta química atuado para acelerar a revelação e o reconhecimento duma vocação ou desígnio, terá ajudado a liberar as forças do inconsciente para emergirem, colocando-se a serviço duma poética, terá atuado no sentido de forçar as paixões para fora do seu balbuciante elemento nebuloso?

Eu diria que sim, contudo não estava inaugurando nada, se já citei Burroughs, também penso em Edgar Allan Poe (ou no meu filtro para Poe que é Cortazar) cuja recorrência ao láudano, ao ópio, ao álcool justifica-se plenamente num poema como O Corvo, num conto como Ligéia, porque escritores precisam soltar a mão, dar nomes aos bois, sem contar que então precisamos sobretudo nos entender em questão de centros: se arrancar o olho dum gato é o eixo dum conto de Poe, não significa que o seu sadismo seja suficiente para produzir um conto. Toma-se conhecimento do sadismo pelas crônicas policiais, a partir daquela filmografia de quinta, mas não bastam maus sentimentos (tampouco euforizantes) para produzir boa literatura.

Parte II

Quanto às anfetaminas, dez anos de incorporação metafísica duma substância à personalidade significam dez anos de ingestão física diária e seu elenco de males e riscos decorrentes; dez anos de uso continuado constelam uma inexorabilidade vital que, por sua vez, forjam seus hábitos, criam regras, inauguram e encerram fases, âmbitos, patamares e, a propósito, a regra número um manda impessoalizar fontes médicas e farmacológicas. Esqueça o médico bonzinho, amigo da família, o farmacêutico camarada e meio trambiqueiro, pois com o passar do tempo – e nisso aposto meu pescoço – o bonzinho vira dragão da maldade. Ao constatar tua necessidade, ele se torna um filha-da-puta ganancioso que transforma a quebrada de galho em relação de poder, tipo viciado versus traficante – o que não era o caso.

Essencialmente, se alguém tem algo a vender é porque existe alguém que quer comprar e vice-versa, esta é uma transação comercial de mútua interdependência e por canais competentes, diferente da relação traficante / viciado, que acontece na clandestinidade.

Usuária oficial, o caso de Diana seria antes do junkie bastante modesto, literalmente do “junkie careta”, o que, naturalmente, é um paradoxo, mas paradoxal não é a condição da literatura?

A regra dois manda não exagerar no consumo, jamais ultrapassar o patamar de pico e nunca mixar anfetaminas com outras drogas, sobretudo as incompatíveis, tipo droga suja ou droga de sonho (como a cocaína, a anfetamina é droga “branca”, droga “limpa”, isto é, droga de poder), drogas de evasão, através das quais se abre mão do controle do ego, como a maconha ou certos ácidos, ou as que relaxam, liberam o superego, tipo o álcool e, nesse caso, a associação inclui desde o simples cancelamento dos efeitos até a piração generalizada (lembram-se de Alvim?). Resumindo: se você for um junkie careta, não misture as bolas e mantenha-se na dose de manutenção, ok?

Certa vez, alguém me perguntou qual era a relação dos meus amigos, namorados, parentes, etc., com o fato de usar anfetaminas: a resposta é que essa relação não existe, é zero vezes zero, nula, caput. Ou eles simplesmente não sabem, ou é bom fingirem muito bem que não sabem. Porque eu nego.

Por isso, a terceira regra é a mais severa: nunca, JAMAIS, em hipótese alguma, conte a ninguém que você usa anfetaminas, nem debaixo de pau-de-arara! Tive algumas experiências amargas about. E uma vez que esse hábito não tem características anti-sociais – até porque os efeitos não são para uso externo e tampouco motivo de jactância – então amoite-se.

Porque a contratransferência na contramão – a popular cobrança – é uma merda. Psicologicamente te deixa tão por baixo que funciona como um anulador de efeitos (que supostamente deviam te botar para cima), ou melhor, é O Grande Anulador de Efeitos.

Sobre ti, qualquer um julgar-se-á no direito de tripudiar, sobretudo aquela vizinha que não bebe, não fuma, pertence à Universal do Reino de Deus, curte (nesta ordem) Adriane Galisteu, Ratinho, barbecue e o Padre Marcelo Rossi. Ou a filha da vizinha que há quatro anos ganhou da mãe um aparelho de karaoquê apenas para cantar, catatonicamente, dia após dia, mês a mês, ano a ano, a abertura do programa da Xuxa: na cultura de massa, a imbecilização infantil é um fato. Quer nasçam com 40 ou 140 de Q.I., aos oito anos todas se nivelam com o mesmo quociente de imbecilização globalizada. Ou o marido da vizinha, um fundamentalista paulistano de chinelo, cujo secreto herói cultural seria um mix de George Bush, Nero e a Cuca.

Afinal de contas, todos eles são politicamente corretos e você não, meu bem.”

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