Em defesa de Marcelo Auler

No começo de maio, o blog do jornalista Marcelo Auler foi obrigado, por decisão da Justiça, a retirar do ar dez matérias sobre a Operação Lava Jato. O fato é apenas um capítulo da série de perseguições e ameaças que tem sofrido nos últimos meses.

Auler é um jornalista sério e investigativo. Ele já trabalhou em diversos veículos de imprensa, como Rádio Globo, O Globo, O Pasquim, Folha de S.Paulo, IstoÉ (São Paulo de 1980 a 1986), revista Carta Capital, jornal Lance!, Jornal do Brasil (online) e tantos outros. Mas o seu jornalismo investigativo não parou nas redações e nas rádios tradicionais. Como cidadão preocupado, em seu blog ele averígua a realidade e a expõe para seus leitores. Ele vinha investigando as operações e os gastos da Polícia Federal no Paraná por perceber que algumas irregularidades poderiam estar se concretizando. Sua preocupação foi inclusive apresentada ao nosso Mandato, por meio de documentos, e mereceu um requerimento de informação proposto por meu gabinete (cuja burocracia da Casa protela para enviar ao destino próprio, o agora Ministério da Justiça e Cidadania).

Em síntese, o jornalista denuncia os gastos feitos para reformas aparentemente luxuosas no prédio que abriga o Grupo de Investigação Social (Gise) e a Delegacia de Repressão a Entorpecentes, em Curitiba. Isso tudo tendo em vista a alegação da PF, em juízo, de ausência de fundos para continuar algumas operações da Lava Jato.

Desde que tornou públicas suas suspeitas e a falta de explicação por parte da Polícia, Marcelo tem sido perseguido e ameaçado – o que já é, por si só, problemático. Recentemente, conforme exposto pela coluna de Elio Gaspari na Folha de S.Paulo, o Juizado Especial de Curitiba, a pedido dos delegados federais Erika Mialik Marena e Mauricio Moscardi Grillo, ambos da Lava Jato, exigiu que fossem retiradas do ar oito matérias escritas pelo blogueiro a respeito das ações da Polícia Federal na operação supracitada. A decisão foi além: exigiu que o jornalista se eximisse de publicar artigos que “pudessem ferir a honra” dos delegados em questão.

O avanço do conservadorismo, na História, sempre esteve vinculado ao silêncio. É necessário ao poder autoritário impedir as críticas e a manifestação livre de pensamento. E isso, infelizmente, tem se tornado realidade em nosso convívio social. Para além do oligopólio antidemocrático dos meios de comunicação – que, por si só, já limita bastante as posições divergentes – está em curso um ataque aos indivíduos que possuem blogs e outros espaços autônomos de crítica na internet.

Como já aconteceu na História, o direito pode acobertar a censura. E tenta, assim, impedir críticas e a necessária transparência dos órgãos públicos.

Que nós não normalizemos o absolutamente anormal: uma esfera pública vazia, silente e sem massa crítica.

 

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