Em 2019, vai ser golpe ou impeachment?

Barbárie ou civilização? Os fins justificam os meios? Pouco importa, anda dizendo mais da metade da população brasileira. Culpa exclusivamente dela? Não se sabe ao certo. A lacuna educacional que as políticas públicas ainda não preencheram contribui para arroubos de fascínio populista, mas isso não seria causa suficiente de circunstância tão maniqueísta como a que vemos na conjuntura política atual.

As pesquisas de intenção de voto apontam para o ponto sem retorno do segundo turno quase fratricida. O tom é certamente menos dramático que o que será usado na reta final da campanha, imagina-se. Na boca de defensores cegos, teremos, no novo governo, o “poste” petista petralha, cujo objetivo único seria soltar o ex-presidente; ou ele terá sido a nossa Hillary e seremos liderados pelo “coiso” (#EleNão), agora o primeiro presidente declaradamente fascista da República.

Em 2014, apesar de Dilma e Aécio terem construído um segundo turno plebiscitário, como quase todos são, a eleição não tratava principalmente de visões de mundo inconciliáveis. Ao menos não era o que os candidatos claramente propunham para aplacar a sanha dos movimentos de 2013. Os temas preferenciais estavam dados: corrupção e ineficiência dos serviços públicos.

A “gerente” e o “honesto” disputaram a preferência da população. Com o resultado apertado, emoldurou-se o que veríamos dali em diante. Enquanto o debate nacional se resumia a “foi golpe ou impeachment”, um horizonte familiar, mas ainda mais grave, foi se desenhando bem debaixo dos nossos narizes. Alguns não se deram conta disso até agora. Entretanto, algo mais profundo se manifestava.

Uma tese razoável é que, em momentos de polarização extrema, a vitória formal se deve ao populismo “único” do líder rival e ao radicalismo atribuído “exclusivamente” à militância contrária. O vencedor “moral” é sempre o derrotado. Portanto, ainda não perdeu. Dá para recontar os votos. Dá para duvidar das instituições. Dá para brincar com a fragilidade da nossa democracia, a título de fortalecê-la. Qual o espanto, então, de já estarem falando nisso antes mesmo das eleições?

Esse roteiro já está sendo escrito. Portanto, não estou necessariamente preocupado com o vencedor e seu governo, mas com o cenário de antagonismo político no qual estaremos enredados mais uma vez. Não é possível saber se o perdedor apertará a mão do vitorioso e planejará usar a extrema popularidade da sua agenda maciçamente votada para construir uma oposição responsável e construtiva – como seria de se esperar em um país que se queira chamar de nação – ou se sucumbirá ao assustador canto da sereia.

No hiato prolongado do surgimento de novas lideranças, a revolta com a indiferença dos governantes “de sempre” passa rapidamente a apontar autonomamente saídas para a crise política, quase sempre irracionais. Essa catarse não mediada não resolve qualquer impasse, flerta com a violência e usa, como arma, a desumanização do oponente. O concorrente vira inimigo. A vida social é transformada no palco principal do teatro dessa guerra.

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Argumenta-se que a resultante da disputa política, em que os vetores em conflito são representativos da sociedade, é sempre positiva do ponto de vista da criação de consensos mínimos que sustentem governos. Há evidências de que isso ocorre, dadas determinadas condições que incluem a maturidade política de uma sociedade. No tradicional segundo turno nos Estados Unidos, os candidatos se aproximam do discurso divergente para obter um apoio imprescindível, não somente para ganhar as eleições, mas para governar bem.

Aparentemente, dessa vez, nem no recente processo eleitoral norte-americano isso está acontecendo. Pelo que se pode perceber pelas notícias na imprensa e pelas respostas do presidente, as eleições parecem ainda não ter acabado por lá. Ou seja, é possível andar para trás, sim! Portanto, é fundamental que os representantes das forças políticas brasileiras deem sinais claros que não vão destruir as pontes fundamentais para a coexistência democrática. Precisam fazer isso logo, sob pena de não haver tempo para arrefecer essas tensões logo ali adiante.

Por fim, esse é o relato de um brasileiro médio. Já me vi assim em duas outras eleições presidenciais: tendo desviada minha atenção da escolha possível para o campo das consequências inevitáveis da marcha da insensatez. Em todas as duas, os eleitos não chegaram ao final de seus mandatos. Dessa vez, por nossos próprios medos e ódios, ando pensando se o vencedor chegará ao início.

Parece trágico, mas se a máxima marxista de que a história se repete como farsa é verdadeira e aplicável a essa situação, é bom nos precavermos. Nossa falta de memória acerca dos percalços recentes da democracia brasileira não a transmutam em forte e resistente a qualquer ameaça. Se há algum imperativo moral, é proteger o que é fundante na nossa Constituição e resgatar imediatamente o que ainda nos une. Não dá para arriscar nosso futuro na próxima aventura, fingindo que não sabemos o que vai acontecer.

 

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