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Eleições e debates em Valfenda: a coisa tá feia…

Escrevo de Prinória, capital de Valfenda. Estamos em pleno processo eleitoral para escolha do mais importante mandatário do país. O Masterchef, a ser eleito diretamente pelo povo para um período de oito anos, acumula as funções de: a) representante maior do Estado perante as nações estrangeiras; b) responsável pelas principais decisões de governo (o tal de Poder Executivo, segundo alguém chamado de Mosquetier); c) dirigente máximo da Administração Pública e d) comandante supremo da Forças Armadas.

Valfenda é uma nação com enorme extensão geográfica. São mais 9 milhões de quilômetros quadrados. As riquezas minerais são incontáveis. A população se aproxima de 250 milhões de pessoas. A atividade econômica está concentrada na agropecuária. A indústria perdeu e perde força continuamente. Uma crise econômica assola o país. O crescimento é praticamente nulo. O desemprego atinge níveis alarmantes. O endividamento da população é altíssimo. Os juros cobrados pelos bancos, extremamente lucrativos, chegam a ser acintosos. A dívida pública é monstruosa. As despesas financeiras com essa dívida consomem a maior parte dos recursos públicos. Os subsídios e renúncias fiscais são monumentais. As reservas internacionais são altíssimas e com elevado custo de formação e manutenção. O sistema tributário, marcado pela excessiva complexidade, concentra a maior parte da pressão fiscal sobre os segmentos mais sofridos da população. Os índices de violência são estarrecedores (mais de 70 mil pessoas são assassinadas por ano).

A sociedade alimenta uma cultura autoritária e profundamente preconceituosa (notadamente em relação às mulheres, negros e homossexuais). São inúmeros os privilégios e benefícios indevidos de importantes segmentos de agentes públicos. Os serviços públicos, notadamente de saúde, educação e transporte, são, em regra, ineficientes e de baixa qualidade. A corrupção está disseminada em praticamente todos os espaços dos setores público e privado. Mais de 60 agremiações, mantidos por recursos públicos, integram o quadro partidário. Os meios de comunicação de massa estão profundamente concentrados em 5 (cinco) grandes grupos literalmente ajoelhados perante um curioso “ente” chamado de “mercado”.

Nada mais, nada menos, que 15 candidatos, num universo de mais de 60 partidos políticos, coligados ou não, disputam o cargo de Masterchef. A descrença na atividade política é altamente preocupante. Imagina-se que abstenções, votos brancos e nulos podem alcançar dois terços do eleitorado.

Esse rápido apanhado aponta para uma conclusão inequívoca. A situação socioeconômica de Valfenda é COMPLEXA, MUITO COMPLEXA, PROFUNDAMENTE COMPLEXA. As soluções, caminhos ou saídas não parecem ser fáceis, simples, rápidas ou indolores. Joel Santana, o mais renomado filósofo dessas plagas, cunhou uma frase famosa. Disse Jojo, como é carinhosamente conhecido: “para todo problema complexo existe uma solução simples porém errada”.

Foi neste quadro, cenário ou realidade, que milhões de valfendenses aguardaram com enorme expectativa o primeiro debate entre os candidatos. Imaginava-se que entre quinze candidatos, um (ou alguns) conseguiria ser convincente e consistente em apontar os rumos para superação da complicada situação “valvenciada”.

Doce ilusão de milhões de pessoas, telespectadores ou eleitores … Duas horas de debate entre 15 candidatos, com respostas de 45 a 60 segundos, não poderiam produzir algo muito significativo, consistente ou profundo. Era muito pouco provável. E a baixa probabilidade se confirmou.

O debate, se é que aquilo pode ser chamado de debate, foi dominado amplamente, mas não exclusivamente, por afirmações genéricas, vazias, pueris e infantis. O sargento Garcia respondeu que a fé (no Criador) e o amor entre as pessoas remediaria todos os males. Pistonaro, misto de homem das cavernas com salvador da Pátria, repetia, para tudo e para todos: ordem, hierarquia, disciplina, tradição, honra e honestidade. O diácono Alcachofra, queridinho do tal “mercado” e de uma ampla coalizão de políticos enrolados de corpo e alma em esquemas de corrupção, cantava o samba de uma nota só: experiência, experiência e experiência (em malfeitos?).

O banqueiro Matareles, candidato a reeleição, afirmou várias vezes que salvou Valfenda do inferno e era a competência em forma de gente. Sou competente, sou competente, sou competente, não cansava de dizer. Cirandino, cabra marcado para morrer, entre uma avaliação e uma proposta, articuladas com enorme superficialidade, estava mais preocupado em demonstrar ser sinônimo de equilíbrio e prudência (será?). Verdina apelou claramente, a partir de sua trajetória de vida, para os nobres sentimentos de compaixão e piedade. Cakes buscou explicitamente, e até verbalizou isso, mimetizar um antigo líder popular escondido numa embaixada estrangeira para fugir das responsabilidades decorrentes do envolvimento com vários tipos de ilegalidades. Os outros candidatos passaram em brancas nuvens.

Triste Valfenda … Tudo indica que aquele pessoal que acompanhou o debate consumindo o melhor uísque, nababescamente instalados em mansões de 20 mil metros quadrados ou mais, usuários de helicópteros como meio comum de transporte, donos de quase 750 bilhões de dólares confortavelmente depositados em paraísos fiscais, mas que não aparecem nos jornais, rádios, televisões, memes ou zap-zaps, sequer nas urnas eleitorais, continuarão sossegadamente dando as “cartas” e enchendo os bolsos...

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