Eleições 2010: cultura ou barbárie?

A adesão massiva da intelectualidade brasileira à candidata Dilma e ao governo Lula, aliás, do melhor ao mais popular da inteligência, arte e cultura produzidas no país nos últimos 50 anos – Niemeyer, Chico Buarque, Leonardo Boff, Ziraldo, Emir Sader, Fernando Morais, Chico Cesar, Wagner Tiso, Frei Beto, Alceu Valença, Alcione, Zé Celso Martinez Correia e tantos outros – sem contar as manifestações de apoio dos setores esclarecidos, além dos movimentos sociais e religiosos, nos deram uma idéia de quanto a sociedade repudia e se envergonha com a ofensiva obscurantista promovida por Serra & asseclas neste segundo turno.

Mas essa estratégia de despolitização radical adotada pelos tucanos, há tempos eu mesma considerava muito semelhante àquela vigente nos EUA - a da chamada “direita louca” (sobre esse ponto, vide as colunas Contra Lula & Obama, a mídia delira, outubro/2009, Bush & Sherazade, março/2008, Feras do Mar, fevereiro/2008. Em artigo, Antonio Martins, do blog Outras Palavras, divulgador do Le Monde Diplomatique Brasil (tanto o site como a revista desativados, insidiosa e silenciosamente, desde março de 2008 pela Folha), confirma minha suspeita ao identificar a campanha Serra como inspirada no Tea-Party, a violenta ultra-direita norte-americana que ressurgiu após a eleição de Barack Obama, tendo Sarah Palin como figura emblemática.

Ela não se parece com a direita clássica norte-americana - que defende convictamente idéias conservadoras – algo impraticável e indefensável aqui, se pensarmos em nossas elites retro-coloniais, representadas pelo DEM e a bancada ruralista; nem se alinha com a direita neoliberal, cujo valor máximo é (ainda é) a supremacia dos mercados, mas reflete o atual impasse do capitalismo ocidental.

Depois de ter seu projeto de sociedade questionado e de tê-lo reciclado parcialmente nas décadas anteriores, as velhas elites em todo o mundo restam impotentes e esgotadas. Recapitulando: após 1968, sua associação com o conservadorismo foi abandonada, contudo a fé na mão invisível do mercado (que substituiu e revestiu o velho conservadorismo com a embalagem da “modernidade” contra a qual “não havia alternativa”) arruinou-se na crise pós-2008: as populações reagem negativamente (a exemplo da mobilização agora na França de 3,5 milhões de pessoas contra a reforma previdenciária de Sarkovsky), tanto as globais, quanto as locais. Como resistir a tudo isso? Na impossibilidade de articulação de qualquer projeto positivo, convoca-se o ódio e o medo, ou seja, o irracional.

Martins observa que a idéia não é má, porque as tendências de ampliação da democracia e transformação social rearticularam-se há pouco, na virada do século, sobretudo na América Latina, sem tempo de enraizar-se no imaginário popular, sem o peso da experiência e da influência geopolítica que no passado tiveram a social-democracia e o socialismo real. Lula, Obama, Evo Morales, o Fórum Social Mundial, a sociedade civil global, as novas classes médias, a blogosfera, são fenômenos demasiado recentes.

Sem projeto para confrontar essas tendências voltadas para o futuro, a direita tea-party apela aos preconceitos passados.O objetivo é evitar o debate político e o choque entre projetos. Seu método é substituir o debate racional pela mobilização dos rancores. Seu poder não pode ser desprezado – especialmente em sociedades nas quais o acesso médio dos cidadãos à informação ainda é reduzido. Nos EUA, pesquisa recente mostrou que apenas um terço da população sabe que Barack Obama é cristão; 20% pensam que ele é muçulmano (!).

A candidatura Serra replica este padrão: jamais apresentou programa — nem à Justiça Eleitoral, nem aos eleitores; limita-se a desfiar uma série de promessas incoerentes e incompatíveis entre si. Ele já foi contra e a favor da renda cidadã e do programa habitacional do governo; diz que o Estado brasileiro tem uma dívida crescente (o que é falso) e ainda assim propõe cortar impostos dos ricos e, ao mesmo tempo, ampliar os benefícios pagos à maioria (contrariando toda a sua prática anterior). Ele tenta sepultar debates incômodos com repentes absurdos, contrários ao seu arco de alianças: em 12/10, dois dias depois de Dilma introduzir na campanha a questão das privatizações, prometeu reestatizar empresas...

Ainda segundo Martins, “a velha mídia jamais questiona estas incongruências. Mergulhada ela própria em crise, talvez deposite suas últimas esperanças numa contra-utopia orwelliana, num descolamento radical entre o discurso político e a realidade, em que a mediação jornalística assumiria por completo caráter de ficção e seria recompensada por isso... Como lhe falta um programa coerente, a direita tea-party apela para a desconstrução das candidaturas inimigas. Nos EUA, contra todas as evidências, Barack Obama é apontado como marxista e traidor da pátria – de nada lhe servindo, aliás, manter um orçamento militar superior ao de George W. Bush. No Brasil, o alvo é Dilma. A "nova" direita não ousa atacar nem a figura de Lula, nem o lulismo. Além de temer a popularidade do presidente, não tem projeto a contrapor. Por isso, sua preocupação central não é, sequer, destacar as possíveis qualidades de Serra – mas transformá-lo, por meio da eliminação política de sua adversária, numa espécie de candidato único.”

“A campanha de Serra articulou o lançamento incessante de boatos anônimos. Mobilizou a classe média conservadora e ressentida numa rede informal muito capilarizada. Imitando uma vez mais o exemplo norte-americano, apoiou-se (sob as vistas grossas da CNBB) no poder crescente que o fundamentalismo está conquistando no catolicismo institucional e em algumas seitas evangélicas.

Disparadas às dezenas de milhões, alegações inteiramente inconsistentes acabam adquirindo força, atingindo um público que se sensibiliza pelo tema em questão e acredita no argumento. A montagem dessa rede de boatos foi a função a que se dedicou o norte-americano de origem indiana Ravi Singh, sócio da transnacional de marketing político ElectionMall – que prestou consultoria por meses à campanha de Serra.”

No entanto, começou a acontecer uma espécie de milagre: a reação irresistível e em cadeia da sociedade que, exposta a uma insuportável avalanche de mentiras e preconceitos medievais, de características exclusivamente negativas, sem nada positivo como garantia além de promessas vazias, parece ter finalmente acordado, fazendo o feitiço se voltar contra o feiticeiro. Uma reação que já se reflete nas pesquisas: Dilma 51%, Serra 39%, abrindo entre ambos 12 pontos percentuais esta semana, quando na anterior já ocorria um empate técnico.

Este é o elemento de altíssimo risco na estratégia tea-party: a mesma violência cega com que irrompe, num movimento reflexo, agora se volta contra ela. E abruptamente se extingue, deixando atrás de si - além da constatação de que sempre será tênue a linha que nos separa da barbárie - um obsceno fosso de silêncio. 

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