Ela chegou!

Ela chegou! E todos deverão ter acesso. O mundo nunca mais será o mesmo após esse acontecimento.

Não imaginei que viveríamos para ver essa conjugação de fatores, capaz de fazer com que algo estivesse disponível igualmente para todos os seres humanos do planeta.

Mas, um momento: olhando mais de perto, vemos que não é bem assim. Percebemos que ela está mais perto de uns do que de outros. A distribuição, portanto, não se mostra tão igual como imaginávamos.

Ora, as características e os arranjos de nossa sociedade, de nosso modo de vida, acabam colocando umas pessoas mais próximas dela do que outras. Sempre haverá os da linha de frente, os que reúnem os requisitos para que tenham esse acesso de forma mais imediata. Não seria diferente com ela.

Ela, no caso... é a covid-19. Parece democrática, igualmente disponível para todo mundo. Nada mais enganoso ou ilusório.

Numa meritocracia às avessas, a de quem parece mais merecedor do horror, a covid está mais ao alcance das periferias. De barracos e casas simples, onde oito, dez pessoas se aglomeram de forma compulsória e fatal. Mais próxima de ônibus lotados de gente a quem não estão dados o luxo, o conforto e a segurança sanitária do tal teletrabalho. Mais perto de quem mal tem tido arroz, feijão, gás… que dirá máscara, álcool 70%, chance de distanciamento, sabonete… água!

Veja a Belo Horizonte de onde escrevo estas linhas. No tenebroso top 5 das mortes, estão bairros como Alto Vera Cruz, Lindeia, Cabana do Pai Tomás e Mantiqueira. O que os aproxima? Todos periféricos. O quinto bairro da lista é a Serra. Parte dele é nobre, mas é nele onde está a maior favela de Minas Gerais.

Se você mora em capital ou cidade de grande ou médio porte, duvido que encontre realidade distinta por aí.

Caso alguém não tenha entendido, mesmo com vinte séculos inteiros de exemplos diários, a lógica da humanidade e de seu modo de produção está dada. Doença, a gente já consegue fazer chegar a quase todo mundo. Vacina, tratamento e até prevenção, essas ainda se regem por uma outra régua.

O vírus não nos igualou. Em vez disso, escancarou o quão obscena é a desigualdade social que nos rege, domina, oprime.

Desgraçadamente, para essa verdade jogada na cara, não há máscara que nos proteja.

*Heitor Peixoto é jornalista e repórter da TV Assembleia de Minas Gerais. Twitter: @heitor_peixoto

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