Ecos do “domingo sangrento”

"O desfecho da eleição na Câmara plantou mais intrigas e desconfianças. Não há o que comemorar. A esquerda sai desse episódio ainda mais dividida. Não há unidade, nem mesmo dentro dos partidos"

Domingo, 5 de agosto de 2018. No último dia para registro de candidaturas à presidência da República, Lula faz valer sua força e impõe de forma legítima a sua vontade.

O PSB é arrastado para a neutralidade. O PCdoB declara apoio ao PT. O PDT termina isolado. Ciro esbraveja. O socialista Márcio França divulga carta atacando a direção de seu partido. Os comunistas tomam a decisão perto da meia-noite depois de um debate interno duro.

Não há fotos da esquerda unida e sorridente se abraçando. Quem ganhou deu um sorriso amarelo. Os perdedores, indignados, recolheram as armas para o próximo embate.

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Não há mocinhos nem bandidos. Certos ou errados. Política é correlação de forças. Se a resultante fosse uma vitória, tudo acabaria se arrumando. Infelizmente, o desfecho foi outro.

A eleição para a presidência da Câmara foi parte desse acerto de contas e das divergências que permeiam o campo popular e democrático. Maia, Freixo, Arthur Lira e JHC, os candidatos defendidos por setores da esquerda ao longo do processo, foram expressões das diferenças.

Discurso ideológico inflamado é jogo de cena para a plateia. A história recente está cheia de exemplos de acertos entre PT e PSDB, PMDB e PT, e apoio do DEM ao PCdoB nas eleições para as casas legislativas. A leitura da correlação de forças e a estratégia de cada partido é o que define os arranjos finais.

Rodrigo Maia construiu um bloco que ameaçava isolar o PT e o PSL. O Planalto, percebendo o risco, aderiu ao favorito. Chamar Maia de bolsonarista é forçar a mão. O Democrata é um liberal. Virou candidato praticamente único por respeitar os partidos, os ritos e a democracia na Casa.

Considerando a questão democrática a mais importante, e coerentes com a defesa da Frente Ampla, PCdoB e PDT decidiram apoiar o candidato do DEM. Os comunistas conseguiram com isso ampliar a defesa de sua sobrevivência partidária. Os trabalhistas viram no movimento uma forma de tentar tomar do PT a liderança da oposição.

O PSB - que trabalhava a construção de um bloco com PDT e PCdoB - fez um movimento contraditório de difícil compreensão. Rompeu com o bloco fazendo um discurso à esquerda e lançou à presidência da Câmara o jovem JHC, militante da campanha de Bolsonaro em seu estado. Os socialistas parecem ainda se ressentir da falta do saudoso Eduardo Campos.

O PT adotou uma tática em sintonia com a estratégia traçada desde as eleições. O partido luta para manter cativo seu lugar de líder da oposição. A “guinada à esquerda” dada por sua direção cumpre esse objetivo. Fechar qualquer flanco que permita o surgimento de forças alternativas nos 20% do eleitorado progressista brasileiro.

O cálculo é simples. Qualquer ampliação pode diluir a imagem e a liderança do partido. Marcar posição é a palavra de ordem. A lógica é repetir a tática do “colégio eleitoral”, quando o partido denunciou e se recusou a participar da eleição indireta que elegeu Tancredo. Esperam com esta política, quando um dia a conjuntura virar, serem os beneficiários diretos e naturais.

O PT começou defendendo a candidatura de Arthur Lira à presidência da Câmara. O deputado do PP se lançou num movimento de reação de parte do Centrão à adesão do PSL a Maia. Estava claro desde o início que a candidatura era somente um instrumento de barganha.

Mas a defesa pelo PT do apoio a Lira serviu ao discurso do partido de apoiar uma “frente ampla não bolsonarista”, demarcando um campo. Com a desistência do deputado do PP, o PT ficou diante de uma situação difícil: lançar candidato próprio ou apoiar o Psol.

A candidatura própria seria morder a isca da acusação de que o partido é hegemonista. Uma das regras básicas na política é nunca deixar transparecer suas reais intenções. O apoio ao candidato psolista também embutia riscos. Sinalizava a opção pelo isolamento sectário. Dificilmente o PT seguiria unido nesse caminho. Todos sabiam disso.

Quando ficou claro o caminho do PT e o movimento do PCdoB de fazer de seu bloco com o PDT o segundo maior da Câmara atraindo partidos menores, setores do PT, temendo a perda de espaços, passaram a negociar com Maia nos bastidores. Prometeram 20 votos. Acabaram dando entre 16 e 18 votos ao presidente eleito. Tudo legítimo e compreensível.

O ponto fora da curva foi o ataque dos setores sectários do PT, usando o Psol, ao PCdoB. Questionar a fusão do PCdoB com o PPL, forma de superação da cláusula de barreira, foi um erro que teve o efeito inverso. Inflamou a unidade comunista. Um recibo desnecessário da inconformidade com a posição adotada pelos comunistas.

O desfecho plantou mais intrigas e desconfianças. Não há o que comemorar. A esquerda sai desse episódio ainda mais dividida. Não há unidade, nem mesmo dentro dos partidos. Uma reorganização partidária ampla no campo não seria novidade.

Por mais que os bombeiros tentem jogar água, as consequências seguem sendo inevitáveis. Os ecos do “domingo sangrento” foram ouvidos com força na Câmara. As gotas de sangue devem continuar pingando por um longo tempo, até que alguma visão se torne novamente hegemônica ou que um novo maestro surja e seja capaz de reorganizar a orquestra.

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