É preciso tirar a máscara

Andando pelas ruas e praças, notamos a presença de velhinhos sossegados e bonachões que caminham devagar, com cara de boa gente e jeito de consciência tranquila. Parecem carregar o peso do tempo nas costas e nenhum peso no coração ou espírito. Esta mesma sensação tenho, às vezes, ao ver filmes e fotos, em revistas ou jornais, de senhores idosos. O caro leitor ou cara leitora deve ter observado que escrevo este artigo com os personagens no masculino. Não citei as velhinhas com cara de gente bondosa, pois de uma maneira geral elas são bondosas. Ou estou enganado?

O jornal Página 12, da Argentina, em sua edição de 7 de outubro de 2011, traz na página 3 a foto de dois velhinhos com a cara que descrevi acima, porém a manchete tira a máscara: “Cárcel comúm para los asesinos de Paco Urondo”. Francisco (Paco) Urondo foi um poeta argentino assassinado pela ditadura argentina em 17 de junho de 1976. A manchete se refere ao julgamento que havia ocorrido no dia anterior na cidade de Mendonza. Foram julgados e condenados cinco ex-policiais acusados de crimes de lesa humanidade. Um deles foi condenado a doze anos de prisão. Os outros quatro, à prisão perpétua.

Com essas condenações, a Argentina registrava, naquela data, 240 condenados por crimes (torturas, violações, estupros, desaparecimento, sequestro e assassinatos) cometidos durante a ditadura argentina contra militantes políticos. Ainda no final de 2011 (29 de dezembro), foi condenado a 15 anos de prisão o último ditador da Argentina, Reynaldo Benito Bignone. Creio que o ditador argentino honrou a homenagem que seu pai prestou ao ditador italiano Benito Mussolini.

É a terceira condenação de Bignogne, que anteriormente já havia sido condenado a 25 anos de prisão e também à prisão perpétua. Agora, foi condenado a 15 anos de cadeia por violações aos direitos humanos (sequestro, tortura e assassinato). Este senhor de 83 anos, de boa aparência, assim como outros, leva uma máscara para nos enganar. A ditadura Argentina foi uma das piores do mundo. Estima-se que funcionaram 600 centros de detenção por onde passaram, segundo os defensores dos direitos humanos, cerca de 30 mil presos.

Durante a década de 1970 e início da de 1980, constantemente víamos o rosto (asqueroso) do ditador do Chile, general Augusto Pinochet, com os olhos cobertos por óculos de lente escura. Passada a ditadura, a imprensa aliada ao ditador e seus familiares mostravam um idoso senhor de rosto cansado e doentio, com um aspecto de dar pena. Era, sem dúvida nenhuma, uma máscara. Pinochet deu um golpe de Estado e impôs uma ditadura que durou entre 1973 e 1990. Agora, sob regime democrático, o povo chileno cobra justiça e cobra a condenação de todos os que sequestraram, torturaram, mataram e desapareceram com adversários políticos. Devido a esta cobrança feita pela sociedade civil, em novembro passado cinco antigos agentes de Direção Nacional de Inteligência (Dina) foram condenados a penas de 15 anos, sem benefícios.

Segundo estimativas oficiais chilenas, foram mais de três mil mortos ou desaparecidos. No Chile já foram instaladas quatro comissões da Verdade. A segunda estimou em 2.279 os mortos ou desaparecidos. A terceira acrescentou mais 899, chegando-se, portanto a um total de 3.197. As Forças Armadas também relataram em um informe que 200 pessoas foram jogadas no Pacífico, em rios e lagos no Chile; outros 1.198 homens e mulheres foram sepultados em locais ignorados. Durante a ditadura chilena, foram presas e reconhecidas como torturadas 27.255 pessoas.

Também em novembro passado, foram condenados cinco militares uruguaios pela morte de María Claudia de Gelman, nora do poeta argentino Juan Gelman, em 1976. María Gelman estava grávida quando foi sequestrada junto com seu marido e transferida, pela Operação Condor, para Montevidéu. Continua desaparecida até hoje. Organizações de direitos humanos acreditam que há cerca de 200 pessoas desaparecidas desde a ditadura no Uruguai. Muitos deles sequestrados na Argentina pela Operação Condor.

A ditadura chilena durou 17 anos. A uruguaia, 12. A argentina, sete. E a nossa (brasileira), 21 anos, se considerada de 1964 a 1985. Há os que a consideram até a Constituinte de 1988. De qualquer forma, a ditadura brasileira foi mais longa e, até o momento, a que menos avançou no rumo do reconhecimento às suas vítimas e seus familiares. No Brasil, só agora, no fim do ano passado, a presidenta Dilma sancionou a lei da Comissão da Verdade, que tem o objetivo (e espero que o cumpra) de investigar os crimes cometidos pela ditadura militar.

Esta comissão tem o curto prazo de dois anos para investigar os crimes da ditadura. Mas, caso este prazo seja curto, o que impede a criação de outra Comissão da Verdade? O Chile já está na sua quarta.

“Así nos es dado ver a muchos viejos que casi no hablan y todo el tiempo parecen mirar a lo lejos, cuando en realidad miran hacia dentro, hacia lo más profundo de su memoria” (La resistencia, Ernesto Sabato).

Será que os ditadores, militares, policiais e civis que direta ou indiretamente torturaram, sequestraram, desapareceram e assassinaram pessoas no Brasil conseguem nesta “mirada” para dentro de si, no mais profundo de sua memória, identificar sua culpa? Como conseguem caminhar pelas ruas e praças de nosso país com o peso que carregam na alma? Até quando vão se postar de velhinhos bonachões e avôs bondosos e exemplares?

É preciso tirar a máscara.

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