Do Coldplay à melhor ficção do ano

Momentos decisivos

Há um burburinho. Os amigos vêm perguntar se já li. Vêm comentar que estão lendo. E o tom é sempre de assombro. Que troço bem escrito. Maravilha, com exclamação. Estão falando de O instante certo, de Dorrit Harazim. A jornalista reuniu 38 textos sobre fotografia. A partir de uma imagem, ela tece as mais deliciosas considerações.

Assim como gosto se discute, uma imagem não vale mais do que mil palavras, ao menos não as palavras da prosa clara e esclarecedora de Harazim, que percorre as fotografias por dentro e por fora. Imagem e texto aqui se apresentam para dar ao leitor-espectador uma visão panorâmica, não restrita ao enquadramento do apenas visível.

De fotos clássicas a pérolas de fazer lágrimas nos olhos, a obra é jornalismo cultural em estado puro. Com informação e reflexão. Também é história e biografia, estética e sociologia.

MM

A melhor ficção brasileira lida este ano, até agora: A vida não tem cura, de Marcelo Mirisola. Sou fã de carteirinha e aqui é ótimo ver o autor sair do personagem-escritor. Apenas um problema: a novela poderia ter sido um romance. Isto é, páginas a mais aplacariam a sede do leitor.

Abusado

O sírio Abud Said, autor de O cara mais esperto do Facebook, incomodou os almofadinhas de esquerda que prestigiaram a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Bastou colocar em dúvida a aura dos Direitos Humanos (em maiúsculas de propósito) e se recusar a fazer o papel do poeta-preocupado para ganhar umas vaias de presente. Uma dica: esqueçam a tolerância ideológica (que aceita o outro apenas quando convém) e divirtam-se com a antologia dos posts de Said, dono de uma verve rápida e que passa rasteiras sem piedade.

Chicos, eu vi...

Dois filmes falados em espanhol, o que é uma vantagem de largada, como bem diz uma amiga.

Truman não é recente nem nada, mas o premiadíssimo trabalho do catalão Cesc Gay fez e fará a história ser recomendada de boca em boca. Amizade e doença, amizade na doença. O sentido da vida encenado por dois atores espetaculares, Ricardo Darín e Javier Cámara. E uma atriz especial, Dolores Fonzi.

Julieta é bem recente e nos traz Pedro Almodóvar de volta. Um amigo cineasta implicou com o excesso de culpa no filme. E também com os recursos narrativos. Gostei de tudo, da culpa que leva ao dilaceramento pessoal e familiar, dos flashbacks, da narração em off, da quantidade de “acontecimentos”, da montagem sem tropeços.

Dica

Não deixe de ver o videoclipe do Coldplay para a canção Up&Up. Nem sou fã da banda, mas aqui cabem muitos adjetivos positivos. Inquietante, deslumbrante etc. Mais de 91 milhões de visualizações no YouTube.

Notas publicadas originalmente na coluna Cabeça, assinada por Sérgio de Sá na Revista Congresso em Foco.

Mais sobre cultura

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!