Dilma erra quando acerta?

O tom da maioria dos comentaristas políticos quando aborda as trocas de liderança do governo no Congresso me deixa intrigado. Quase todos criticam a substituição do deputado Cândido Vacareza por Arlindo Chinaglia e do senador Romero Jucá pelo senador Eduardo Braga. Teria sido uma “inabilidade” da presidente Dilma Rousseff. Em geral são os mesmos que vêm ao longo do tempo, muitas vezes cobertos de razão, fazendo a crítica cáustica das mazelas do presidencialismo de coalização e de suas concessões – diria mesmo de sua natureza – de pés e mãos atadas ao fisiologismo, clientelismo e resultante corrupção que dominam a política brasileira. E ressaltam diariamente como isso se reflete na ocupação de cargos governamentais de primeiro escalão neste governo e nos anteriores.

Pois é de justiça reconhecer que a troca foi positiva! Em Chinaglia, temos um interlocutor para questões de interesse público que não tínhamos antes. Eduardo Braga certamente tem mais conteúdo que seu antecessor Jucá. Da mesma forma, todos os ministros, com exceção de Nelson Jobim, que caiu por outros motivos, foram substituídos por outros de muito a um pouquinho melhores. Dilma claramente sinaliza um esforço de inflexão dessa extraordinária mediocridade que resulta do loteamento político do governo, sem o qual, no entanto, não teria maioria para governar.

Essa é a realidade cruel da política brasileira, que só mudará com uma reforma política que reforce uma política programática e um serviço público de Estado com a necessária autonomia em relação à política eleitoreira e seus jogos de interesses. Reforma que dificilmente irá acontecer ... É o drama de Dilma, mas é também o drama de todos nós que queremos mais república e menos fisiologismo, clientelismo e corrupção. A quadratura do círculo brasileira ...

A imprensa aborda essa questão de forma tópica e sensacionalista. O escândalo do dia, a bola da vez, o judas da semana. Raramente desconstrói institucionalmente o sistema, corruptor por default , para usarmos linguagem digital. Nesse caso, os coleguinhas ressaltam aspectos periféricos (“fulano soube pelos jornais”, “Dilma foi antipática com beltrano”), e cinicamente assumem que foi um erro político ela ter melhorado a qualidade de sua interlocução parlamentar do ponto de vista do interesse público, embora, eventualmente, piorado sua condição na barganha tradicional com a pletora de grupos de interesse que compõem a maioria do parlamento. Lula, com a força de sua popularidade, teve lá atrás a oportunidade (ou várias oportunidades) de tentar mudar a política brasileira como ela é. Sequer tentou. Preferiu cooptar para si os esquemões tradicionais e jogar a política brasileira como ela é.

Hoje somos um país economica e socialmente mais avançado, depois de dezessete anos de governos das duas vertentes rivais da social-democracia com seus respectivos aliados do campo do atraso, para usar a imagem de Fernando Henrique. Politicamente e institucionalmente, estamos tão atrasados quanto estávamos. A corrupção está mais exposta, mas essa exposição não alavanca nenhuma mudança. Passou a ter um efeito desmobilizador e afastar cada vez mais da política quem poderia contribuir para melhorá-la. A própria crítica aparentemente tão implacável já parece ter sido cooptada para ser parte do jogo. Quando a crônica política faz da aparente “desfeita” da presidente aos seus ex-líderes o gancho da matéria e não ressalta que a troca foi, de fato, positiva, percebemos claramente o quanto a cultura da política brasileira como ela é tornou-se hegemônica, mesmo entre aqueles que diariamente aparentam criticá-la.

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