Dilma e o PMDB, à moda de Shakespeare

Desde que se formou, no início do ano passado, o eixo da aliança que iria eleger Dilma Rousseff presidenta da República, já se sabia que o PMDB se constituiria, ao mesmo tempo, na sua maior fonte de soluções e de problemas. Saí de férias no final do ano passado e voltei agora, e nada mudou. O extrato do primeiro ano de governo e o início do segundo não deixam dúvida. Se o resumo político do ano passado mostra Dilma às turras com o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves, este início de ano começa justamente com Dilma às turras com o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves. É uma queda-de-braço constante: Dilma aperta, Henrique arreganha os dentes, Dilma arreganha os seus, Henrique cede. O próximo passo de Henrique será dar algum susto em Dilma na primeira votação em que Dilma precisar dos votos do PMDB na Câmara. Esse tem sido o script, e ele não irá mudar. Não é à toa que Dilma tem confidenciado que, de tudo o que faz no Palácio do Planalto, o que mais desafia a sua paciência é a negociação política com o Congresso. Que se inicia, necessariamente, com a negociação com o PMDB, seu principal parceiro político.

Dentro da lógica do presidencialismo de coalizão brasileiro – que virou um dogma que ninguém arrisca mudar –, ter o apoio do PMDB virou algo fundamental. Ao longo da sua história mais recente, o partido abriu mão de ter um projeto nacional de país para poder aderir a qualquer projeto que aparecer. Torna-se, assim, maleável a qualquer conformação de governo e a qualquer aliança regional. Assim, elege sempre grandes bancadas e a sua anexação ao governo torna-se essencial para que ele obtenha os votos que necessita no Congresso. O problema é que o PMDB cobra um preço alto por esse apoio, em cargos e espaços. Num padrão, porém, de ética, eficiência e comprometimento republicano que não parece ser o que Dilma propugna. Daí, os atritos. Dilma impõe o padrão, o PMDB reage a ele, Dilma insiste, o PMDB recua, mas espera a oportunidade para o troco. Quando Dilma precisa dos votos, precisa renegociar, e aí é que o PMDB espera que ela  ceda.

Os governos anteriores, de Fernando Henrique e de Lula (que adotou essa lógica especialmente depois do escândalo do mensalão), cediam mais cedo. Dilma, muitas vezes, não tem cedido – especialmente nos episódios em que troca ministros e cargos de confiança no segundo escalão. E fica mais encarniçada a briga com o PMDB.

Há algo de Shakespeare nessa relação de Dilma com o PMDB. Mais especificamente, há algo de “A Megera Domada” nesse jogo. “A Megera Domada” é uma deliciosa comédia escrita por William Shakespeare em 1594. Em 1967, foi filme com Elizabeth Taylor e Richard Burton, numa demonstração de bom humor do casal, que vivia às turras como os personagens da peça.

Resumindo a trama de Shakespeare, veja como ela lembra a relação de Dilma com o PMDB. Rico comerciante da cidade italiana de Pádua, Batista tem duas filhas. Bianca é uma flor de criatura. Catarina é o cão chupando manga. Assim, Bianca tem várias pretendentes, e homem nenhum aceita se aproximar de Catarina. Ocorre que Batista resolve que enquanto não arranjar um marido para Catarina, Bianca também não casa. O que ele oferece em troca para quem aceitar aturar Catarina? Um dote milionário.

Atraído pelo dote, Petruchio resolve topar a parada. Casa-se com a megera. E resolve usar como tática ser mais insuportável do que ela. Antes que ela possa fazer a primeira cena, ele joga sua comida no chão e inferniza ela durante toda a primeira noite. Depois, a veste com farrapos. E continua, assim, tratando Catarina mal. Até que Catarina acaba cedendo para que o marido se acalme. E é assim que a “megera” fica “domada”.

Não parece a história da briga de Dilma com Henrique Alves em torno da demissão de Elias Fernandes do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS)? A Controladoria Geral da União apontou os rolos de Elias. Dilma, com o padrão que quer imprimir ao seu governo, exigiu a saída de Elias. Henrique resolveu peitá-la. Dilma mostrou quem é que, afinal, mandava. Henrique, ao ver alguém mais genioso do que ele, acabou cedendo.

Dilma domou a megera? Não dá para saber ainda. No teatrinho da Esplanada dos Ministérios, ainda não caiu o pano.

Governo e iniciativa privada

Aproveito para recomendar a todos a leitura do artigo do meu amigo Mário Salimon sobre o projeto de Dilma de imprimir uma reforma na gestão pública dando a ela o ritmo e os conceitos da iniciativa privada. Especialista em gestão, Mário diz no artigo que tal proposta pode ser “trocar o sujo pelo mal lavado”.

O problema, diz Mário, não é discutir qual é o modelo mais adequado para a gestão, se o do serviço público ou o da iniciativa privada. Se o padrão das empresas fosse a solução para todos os problemas, diz ele, o capitalismo não estaria vivendo hoje a crise mundial que vive.

O problema, segundo Mário,não é que o modelo do serviço público seja necessariamente ineficiente. O problema é que, no Brasil, o serviço público não está exatamente a serviço do público na maioria das vezes, mas a serviço dos interesses dos grupos políticos que loteiam as áreas da administração. Enquanto não se atacar esse ponto, não adianta discutir modelos de gestão. Leiam aqui o artigo de Mário Salimon.

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