Dilma de calças

Se a saúde permitir – e os resultados dos últimos exames acerca do câncer na laringe parecem demonstrar que permitirão –, o ex-presidente Lula voltará a ser – senão a principal referência – uma das principais referências da próxima eleição no país, o embate municipal que se dará em outubro deste ano. E, assim, dará mais um passo no que é, de fato, seu objetivo: ser sempre uma das principais personalidades políticas do país, em qualquer tempo e circunstância, provavelmente para voltar à Presidência da República ao final do governo Dilma Rousseff, em seu eventual segundo mandato, após 2018.

Caso isso aconteça – e no cenário atual, tudo indica que acontecerá, diante do enfraquecimento crônico e da esquizofrenia que abate a oposição –, Lula poderá completar a proeza de manter o PT no poder do país por 24 anos consecutivos: os oito anos dele; oito anos de Dilma e mais oito anos novamente de Lula em sua volta. Trata-se de algo impressionante dentro de um cenário democrático. Vai superar a ditadura militar, que durou 21 anos! Vai superar a ditadura de Getúlio Vargas, que durou 15 anos! Só não vai superar os 58 anos de reinado de Dom Pedro II. Mas ele era rei, e rei não perde a majestade. Se não tivesse sido destronado pela proclamação da República, Dom Pedro II só ia sair morto da Quinta da Boa Vista.

E esses 24 anos só não serão exclusivamente de Lula porque a legislação não permite. Assim, quando não pode ele mesmo concorrer, Lula vai moldando os candidatos à sua imagem e semelhança para pontuar a todos que é ele quem ganha indiretamente. Assim foi com a unção de Dilma, uma mulher desconhecida da maioria da população, que Lula concebeu e elegeu presidenta. Para governar, imensamente grata a ele. Ainda que pontue diferenças, por conta de outras convicções e particularidades da sua personalidade, Dilma jamais fará algo que contrarie Lula frontalmente. E, quando ele quiser voltar, naturalmente estenderá um tapete vermelho para ele.

As eleições do ano que vem não são federais. Mas o resultado delas prepara o terreno para o que acontecerá no pleito federal seguinte. Assim, Lula precisará estar presente onde for possível. Especialmente na principal eleição a ser disputada: a que elegerá o prefeito de São Paulo, a principal cidade do país. E, para ela, Lula escolheu uma Dilma de calças. Da mesma forma, pretende ungir na prefeitura outra figura desconhecida da população, na primeira experiência eleitoral, que se moldará à imagem e semelhança do seu criador, eternamente grato, para estender a Lula também o tapete vermelho quando ele retornar.

A última pesquisa do Instituto Datafolha demonstra que o plano de Lula com sua Dilma de calças, o ministro da Educação, Fernando Haddad, tem tudo para dar certo. Será incrível. Como ministro, Haddad ficou mais conhecido pelas trapalhadas anualmente ocorridas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A pesquisa do Datafolha de agora mostra que quase ninguém o conhece. Ele tem apenas 3% ou 4% das intenções de voto, dependendo do cenário. Mas, a se confirmar que o candidato do PSDB não será mesmo o ex-governador de São Paulo José Serra, Haddad tem tudo para ganhar.

Primeiro, a pesquisa mostra que sem Serra, todas as outras opções postas no tabuleiro não aparecem numa situação assim tão melhor que a de Haddad. Se Serra, entra na briga, ele ganha com 18%. Se ele sai, quem ganha é Celso Russomano, do PRB, um nome que já disputou com bom desempenho outras eleições em São Paulo.

Mas o que mais espanta é que nada menos que 48% dos entrevistados – quase a metade! – respondeu na pesquisa que poderia votar num candidato que viesse a ser apoiado por Lula. Entre os que têm apenas o ensino fundamental, esse percentual vai a impressionantes 58%.

Na campanha presidencial de 2010, Dilma era conhecida dos eleitores em grande parte do país apenas como “a mulher do Lula”. Ou seja: muitos nem lembravam bem qual era o seu nome, mas estavam com ela porque ela era “a mulher do Lula”.

A maioria dos eleitores de São Paulo ainda não sabe que na eleição municipal deste ano Fernando Haddad é “o homem do Lula”. A julgar pelo que mostra agora a pesquisa, quando souberem, irão alavancar Haddad muito além dos seus atuais 3% a 4%. E Lula terá eleito outro “poste”. E é de poste em poste que ele irá iluminando seu caminho de volta à Presidência.

Feliz Ano Novo!

Quando vocês estiverem lendo esta coluna, eu já estarei de férias. Volto ao batente no final de janeiro. A todos os meus leitores – aqui neste espaço ou no Congresso em Foco – os votos de um 2012 com tudo de bom. Com menos corrupção, mais seriedade e mais espírito público na política. Até a volta!

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