Dia de dizer “sim” à democracia

Cileide Alves *

Este é Jaime (foto abaixo). Cruzei com ele na tarde desse sábado (27). Confesso que não vi o ser humano sentado ao chão sobre um papelão, na porta de uma padaria de grife, na Avenida T-1, no Setor Bueno, em Goiânia. Há tantos mendigos pela cidade que a gente se acostuma. Não vê a pessoa; vê um símbolo, o mendigo. Símbolo da pobreza e da miséria humana com a qual, estranhamente, nos acostumamos.

Jaime e o poder da esperança

Passei pelo homem que descobri, depois, chama-se Jaime e segui meu caminho. Andei alguns passos e um detalhe da imagem que acabara de ver destacou-se em minha mente, como um zoom manipulado na edição de um vídeo. Foquei nela e percebi algo diferente. Era um livro. Continuei meu caminho com passos mais lentos, com a cena piscando insistentemente. Parei e voltei.

Aproximei-me do homem constrangida em constrangê-lo. Olhei de longe e vi: sim, havia um livro ao lado daquele mendigo. Li o título e fiquei ainda mais intrigada: O Poder da Esperança — Segredos do Bem-Estar Emocional [1]. O livro, o tema e o título destoavam daquela cena de desesperança e solidão.

Finalmente fixei-me na pessoa. Era um homem jovem, bonito, saudável e forte. Estava com roupas aparentemente limpas, barba serrada, cabelo bem cortado e um olhar triste. Eu me enchi de coragem e me aproximei.

– Olá, tudo bem? Seu livro me chamou a atenção.

– Olá, eu ganhei de uma senhora — respondeu-me educadamente e com um bom português.

– Por que você está na rua?

– Cheguei em Goiânia há quatro meses para trabalhar. Perdi o emprego. Faz 40 horas que não tomo banho. Preciso de R$ 40 para alugar um quarto, tomar um banho e passar a noite.

– De onde você é — perguntei, atenta ao inconfundível sotaque.

– Do Rio Grande do Sul.

– Esse livro com este título e ao lado de um homem na sua situação...

– Quer o livro para você? Eu já li.

– Não, obrigada, o livro é seu. Tenho livros em casa.

– Uma senhora me deu. Eu li todo, mas na minha situação…

Ele para de falar por um momento, engoliu o choro e continuou:

– Deus é quem me ajuda, não esse livro. Infelizmente no mundo de hoje a gente precisa disto [aponta para uma nota de dinheiro]. Isto [agora aponta para o livro] não … [quis dizer que não combina, mas não completou a frase]. Engoliu de novo o choro.

– Leva pra você, por favor.

Indecisa entre aceitar e recusar, acabei aceitando, por caridade. Como recusar, afinal, se ele não via sentido em ficar com o livro.

Agradeci o presente, desejei-lhe melhor sorte e saí caminhando com seu livro. Abri-o no sumário. Meu olhar foi direto para o título do segundo capítulo: “Ansiedade: Excesso de futuro”. Na sequência li: “Depressão: excesso de passado” e, por fim, enxerguei o quarto capítulo: “Estresse: excesso de presente”. Meus pensamentos voltaram-se para o belo homem. Quais dramas ele viveu? O que o levou para a rua, ansiedade, depressão ou estresse?

Em meus devaneios pensei em Jaime como uma metáfora de nosso país neste 27 de outubro de 2018, véspera da eleição presidencial mais atípica da história pós-redemocratização. Estamos todos adoecidos. Sofremos de ansiedade pelo futuro que não conseguimos antever. Qual país nos espera a partir deste domingo (28)? Será um país em busca de aprimorar sua democracia ou de retrocesso? Viveremos tempos sombrios ou marcharemos adiante, sem sobressaltos?

Estamos adoecidos de depressão pelo passado que nos assombra. Em 2013 a população foi às ruas, pediu socorro, mas seus representantes fizeram ouvidos moucos. Lembrei-me das aulas de ciência política na Faculdade de Comunicação, quando o professor contava como os militares mudavam a legislação eleitoral a cada derrota, como a histórica eleição de 1974 (o MDB, a “oposição consentida”, elegeu 16 dos 22 senadores) para favorecer os candidatos da Arena, o partido situacionista.

Mesma reação dos deputados e senadores na reforma política de 2015. Mudaram a legislação eleitoral para facilitar a reeleição dos caciques políticos, como fizeram os militares durante a ditadura. Irritado, o eleitor deu a volta nas leis casuísticas e votou contra os caciques. Varreu tudo, em alguns casos levou o trigo junto ao joio. “É a luta política”, dizia meu professor, da qual o eleitor também é parte. Nosso passado, tanto o recente como o histórico, nos assombra.

Por fim, estamos adoecidos de estresse do presente de luta fratricida que marcou esta eleição. Raiva, rancor e ressentimento substituíram o debate de ideias e de projetos políticos para o país. Foi a eleição da negação, da repulsa. Os milhões de Jaimes invisíveis que povoam as cidades brasileiras simbolizam um país injusto, com uma das piores distribuição de renda do mundo, mas não sensibilizaram candidatos e eleitores.

O Brasil que vai as urnas devia pensar em inclusão, em humanismo, em amor, em solidariedade e em paz. Não se constrói uma nação com ódio e segregação, muito menos com totalitarismo. O dia de votar é, simbolicamente, o dia reverenciar a democracia. Que este 28 de outubro entre para a história como mais um passo adiante na construção desta sociedade mais justa, mais humana e mais democrática e não como um dia de retrocesso.

[1] Poder da Esperança — Segredos do Bem-Estar Emocional, de Julián Melgosa e Michelson Borges. Tatuí (SP), Casa Publicadora Brasileira, 2017.

* Jornalista, especializada em política, e mestre em História pela Universidade Federal de Goiás. Apresentadora na Rádio Sagres 730. cileide.alves@gmail.com.

Da mesma autora:

O desafio da campanha eleitoral e a escolha de um “doido” para presidente

Nas lições de Zuenir e Washington Novaes, uma reflexão sobre os erros e acertos da mídia brasileira

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!