Desnudando Barcelona

Cláudio Versiani*

Em Barcelona pouco se vê gente correndo. As pessoas andam tranqüilas na rua. E conversa-se muito, em qualquer lugar. No meio da calçada, no caminho dos outros pedestres e estes que se virem ou desviem. Ninguém reclama, quase nunca.

Entrei na lavanderia e o senhor veio lá de dentro, bem devagar. Por sorte, a lavanderia estava vazia, mas o senhor olhou e olhou tanto as minhas roupas que uma pequena fila foi se formando. O que poderia ter sido feito em três minutos levou uns 12 e todo mundo tranqüilo. E, se tivesse puxado um papo, o tempo seria muito maior.
 
No supermercado, independentemente do tamanho da fila, o caixa adora bater um papo. Experimente comprar um cigarro na tabacaria da esquina onde todos são amigos do dono e a cena vai se repetir, com ou sem fila.

Fuma-se e muito por aqui. E ai de quem reclamar. Os bares e restaurantes podem optar por permitir ou não o fumo. É como ambientes sem fumaça não fazem muito sucesso, o que se vê por aqui é muita fumaça. Se o estabelecimento tiver mais de 100m², fumadores e não fumadores ficam em salões separados.

E também se pode fumar outras coisas por aqui. Barcelona é cidade de praia e como quase toda cidade banhada por um mar, liberal. Ninguém vai lhe molestar. Nem mesmo o “Mosso d'Esquadra”, a polícia.

Alguns acreditam que seja liberal demais. Não é raro se ver um ou outro peladão pelas ruas. O mais famoso de todos se chama Señor Esteban T.E. ou T.C., cuja praia é a praia mesmo, mas que desfila por qualquer outro lugar de Barcelona.

Para quem se interessa pelo assunto...

http://www.absurddiari.com/s/llegir.php?llegir=llegir&ref=11003

http://www.adn.es/politica/20071024/NWS-3180-Barcelona-Multan-nudista-euros.html

http://news.bbc.co.uk/hi/spanish/misc/newsid_3614000/3614122.stm

As matérias são antigas, mesmo porque Esteban continua circulando livremente...
 

...inclusive no Passeio de Grácia, a Quinta Avenida dos catalães. Avenida dos ricos e para os ricos, onde estão as lojas chiques e um dos metros quadrados mais caros da Espanha e do planeta.

Quem é que pode pagar 2.350 euros por um vestido Dolce & Gabbana e mais 450 euros por um sapatinho básico? Só se for novo rico milionário corrupto da máfia russa.

A crise chegou feio por aqui também e chegou para ficar. Pela primeira vez desde 2003, os preços dos imóveis estão caindo, seja para venda ou para aluguel.

Segundo dados de 2006, a economia catalã representa 20% do PIB espanhol. O percentual segue crescendo. Ou seguia. Não se sabe mais e ninguém sabe de mais nada. É a crise.

Nem sempre foi assim. Barcelona mudou mesmo a partir da Olimpíada de 92. Foi aí que os catalães mostraram ao mundo do que são capazes e desconfio que foi nessa época também que eles descobriram que gostavam de ganhar dinheiro.

E nesse assunto eles são agressivos e espertos. O filme Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, nada mais é do que o resultado de um acordo entre o governo da Catalunha e o cineasta. Por esse acordo, o nome da cidade deveria estar no título. Outras exigências estavam no contrato. Para levar a grana dos catalães, Woody Allen cumpriu as regras e reclamou muito. Deixou uma imagem antipática, mas levou a “plata”. Alguns catalães não gostaram de nada. Nem do filme e muito menos do dinheiro que o cineasta ganhou.

A cultura catalã é o cartão de visita de Barcelona. Funciona em todo o mundo. Salvador Dali e Gaudi são os gênios da raça e orgulho catalão. Joan Miró é outo celebrado aqui e em toda parte. Pablo Picasso, que é de Málaga, mas que viveu sua juventude em Barcelona tem um belo museu na parte velha da cidade.

E por toda cidade está a bandeira do país, seja a oficial ou a separatista, ligeiramente modificada. E as pichações fazem parte do visual de Barcelona.

Aos poucos se vai descobrindo o que é a tal da Catalunha. Quando a Espanha ganhou a Eurocopa de futebol recentemente, houve pouca comemoração nas ruas de Barcelona, muito estranho.

Pesquisando e xeretando por aqui, entrei numa loja centenária que vende vinhos e fui olhar o espumante catalão, o cava. Um produto que também faz as vezes de cartão de visita mundo afora.

Conversando com o vendedor eu caí na bobagem de elogiar o cava feito na Espanha. O homem virou bicho e só faltou me bater. Que Espanha que nada, hombre! Catalunya...Catalunya!

Eu pedi desculpas e saí de fininho.

A língua é uma loucura e um problema. Quando eles querem te isolar, o catalão impera. Amigos brasileiros que passaram por aqui definiram o catalão como a língua do Mussum. Faz todo o sentido. As palavras têm sempre uma vogal faltando e um “s” sobrando como em “fruits” ou “verdurs” por exemplo.

E outro problema é manter a cultura e a língua vivas. O governo investe. Quando o jovem se forma e antes de ingressar na faculdade ele ganha uma assinatura de jornal por seis meses, desde que o jornal seja em catalão, é claro. E as publicações em catalão também levam o seu quinhão.

Em agosto a única palavra que se ouve é vacaciones. Tudo fecha na cidade. Como muitas empresas e pequenos negócios são familiares, a solução é fechar mesmo.

Até algumas bancas de revista do Passeio de Grácia, com certeza um dos pontos turísticos mais concorridos do planeta, fecham. Muito estranho.

A cidade pára e só os lugares turísticos conservam a vida. O resto vira uma cidade fantasma ou quase.

Mas nem tudo é bacana em Barcelona. Tem muito batedor de carteira por aqui e não dá para relaxar quando se anda com uma máquina fotográfica pendurada no pescoço. Em NY isso era possível. E no Brasil imagino que seja quase impossível.

Se em NY “time is money”. Aqui “tiempo es tiempo mismo”. Quem está certo ou errado? Não sei, mas desconfio.
Visca Barça!

Não falei? O catalão é tão estranho que até cedilha tem.

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