Desculpe, Gilberto Gil. Aquele abraço só depois

Leitores pedem que eu esqueça Bolsonaro um pouco. Então, tá. Prometo me esforçar. Mas o capitão vai ter de dar sua contribuição para me distrair dele, de seu (des)governo e de suas asneiras. Senão... eu reincido!

Pois hoje vou sair totalmente da política, tema predominante desses meus artigos. E vou falar sobre uma das pérolas de nossa MPB, o lindo samba “Aquele Abraço”, de Gilberto Gil. Mal começo a tratar da música e já sou interrompido pela notícia de que, no instante em que os números da contaminação pela covid explodem pelo país, com recordes de mortes e pré-colapso da rede de saúde, Bolsonaro participa de uma baita aglomeração no Ceará, abraçando todo mundo, todo mundo sem máscara, um descalabro completo. O médico Drauzio Varela disse que o ato dele não foi uma irresponsabilidade, e sim um crime. Desse jeito não vai dar pra falar de “Aquele abraço”.

Mas, vamos tentar. “Aquele abraço” parece apenas uma despedida. Mas é como os soldados saudavam Gilberto Gil quando ele esteve preso no quartel da Marechal Deodoro, no Rio de Janeiro, em 1969. Era um bordão do humorista Lilico, na TV Globo, muito popular naquela época. Desculpe, mas o noticiário me interrompe de novo, dizendo que, no instante em que o país se debate em meio a um dos mais altos picos da pandemia – que vai piorar, segundo todos os especialistas - o Congresso Nacional prepara a aprovação de uma reforma na Constituição para blindar seus integrantes e impedir que sofram o “constrangimento” da prisão por decisão de um ministro do STF. Mesmo que deputados e senadores tenham roubado, matado ou se insurgido contra o sistema democrático com a defesa do fim de instituições do estado, e defendam até a morte de ministros do STF, como ocorreu com o deputado Daniel Silveira outro dia, vão ser beneficiados com a medida.

De volta à música.  Realengo não foi o lugar onde Gil ficou preso (“Alô, alô, Realengo”). Segundo ele próprio, é apenas um bairro do subúrbio, que pudesse simbolizar o local da prisão. “Realengo” ganhou este nome porque era como o bairro do Real Engenho aparecia no letreiro dos ônibus daquele tempo: REAL ENGº. Eu até podia seguir em frente se não fosse informado neste instante que, no momento em que neurocientistas respeitados como o professor Miguel Nicolelis, catedrático da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, avisam que o Brasil está à beira do colapso na saúde, e que a previsão é a de falta de medicação, de instrumentos para intubação e até mesmo da impossibilidade de transferência de doentes, pouco antes o presidente da república enviou ao Congresso um projeto que facilita o acesso às armas. E nos morros dominados pelo tráfico os bandidos soltaram rojões ao receberem a auspiciosa notícia. Ou seja: armem-se. E se desarmem para o vírus, que continua ceifando centenas de vidas diariamente.

Quando ouviu a primeira vez, o apresentador Chacrinha não gostou do trecho: “Chacrinha continua balançando a pança”. Mas terminou aceitando a brincadeira como homenagem, e não como crítica. Tenho muito mais pra falar sobre “Aquele Abraço” mas, neste exato momento, chega a informação de que  o Congresso Nacional, provavelmente contaminado não só pelo coronavírus  mas por um surto de oportunismo e irresponsabilidade, decidiu retomar as atividades presenciais, como se tudo estivesse na mais  absoluta normalidade. Trabalhei ali durante uma vida. É um dos lugares mais fechados que existem. Niemeyer não planejou janelas. O ar é viciado. O ar condicionado não tem como ser renovado. No plenário e nas salas das comissões, principalmente as da Câmara, são totalmente lacradas e sem nenhuma janela, não há como escapar da contaminação mesmo usando máscaras.

Gil revelou anos depois que “Aquele Abraço” se passa numa Quarta-Feira de cinzas. ´”É quando o filme da música fica em mim mentalmente locado”.  Só que não dá pra ir em frente contando a história de “Aquele Abraço” quando salta na tela do computador a notícia de que, no instante em que instituições acadêmicas como a Universidade de Brasília restringem com rigor todas as atividades presenciais em seus campi, incluindo a suspensão das obras de construção civil, e cancelam todas as atividades letivas e administrativas, o governo Bolsonaro solta no rádio e na tv um anúncio do Ministério da Educação sobre “cuidados para a reabertura das escolas públicas”, exatamente quando o país supera aos milhares a marca trágica dos 250 mil mortos. Já uma campanha oficial nos meios de comunicação sobre cuidados com isolamento, uso de máscaras e higienização de mãos e objetos de uso comum...até agora, nada.

Gil não chegou a aproveitar o sucesso do samba “Aquele abraço”. Em julho do mesmo ano, havia partido para um auto-exílio em Londres, com sua esposa Sandra, acompanhado de Caetano e Dedé. É chato ter de interromper de novo. Acabo de ver aqui que o Facebook  está entupido de fotos e de textos denunciando a explosão de casos de covid em escolas do Brasil, com número crescente de mortes de professores e estudantes, sem nenhuma providência do governo.

Desculpe o mau jeito pra encerrar este artigo, Gil. Você é um querido. E o samba que você fez ao deixar o Brasil pra escapar dos canalhas da ditadura militar de 64 é, apenas, um primor.

Mas, neste momento, só Bolsonaro é que anda por aí abraçando todo mundo sem qualquer proteção, dando o mau exemplo. Ele faz tudo para se manter abraçado... ao poder. Inclusive por em risco a vida do seu próprio povo. Portanto, meu caro Gil, aquele abraço que nos demos depois da entrevista que você me concedeu quando era ministro da Cultura para falar do poeta Torquato Neto, seu parceiro, que nunca esqueci, agora não dá pra repetir. “Sei que nada será como antes, amanhã”, como diriam os compadres Milton Nascimento e Beto Guedes. Tomara.

Aquele abraço, Gil!  Mas, por enquanto, de longe. E com máscara, viu?

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