De médico e cubano, todo mundo tá importando

Doze horas após o aviso via facebook, e aproveitando a desoneração do imposto de importação para a “linha roupa branca”, chegava ao Brasil o avião com o primeiro grupo de médicos cubanos. Não sem protestos. Revoltadas, entidades médicas espalharam boatos nas redes sociais de que o acesso aos profissionais estrangeiros seria cobrado do cidadão-usuário. “Saúde brasileira é assim: é desgraça, e sempre será”, afirmou o presidente do Conselho Municipal Estadual Regional Nacional Mundial Universal de Medicina e de Assuntos Correlatos Ou Não (CMERNMUMACON).

Enquanto isso, a primeira turma de médicos se formava nas novas regras, com estágio de dois anos pelo SUS. Nós conversamos com um dos formandos. Ele afirmou com exclusividade a esta coluna detalhes de toda aquela experiência. Dizia lembrar-se como se fosse ontem do seu primeiro paciente: era seu Epaminondas, 65 anos, de Quixeramobim, que chegara ao pequeno hospital com suspeita de fratura na clavícula, após um tombo de bicicleta. O último paciente foi igualmente marcante. Na verdade, foi igualmente, igualmente... era seu Epaminondas, 67 anos... de Quixeramobim... com a mesma roupa... bem mais grisalho e barbudo... ainda aguardando a liberação do raio-X.

Claro que o novo médico, recém-formado na nova doutrina, não permitiria uma situação escabrosa como aquela. Pensava: “Não é justo alguém ficar dois anos no SUS para ser atendido” (pra se formar também não, mas agora já era). Fato é que se sensibilizou com o pobre do seu Epaminondas.

Primo de quarta geração do vizinho de um senador do Ceará, o novo médico padrão Dilma fez o caso chegar ao nobre parlamentar. Acossado pelo “gigante”, já no dia seguinte, o Senado tratava do problema em sua agenda positiva. De pronto, aprovou a PEC criando a figura do suplente de paciente. Dois, na verdade, com a possibilidade de indicação de parentes.

Houve festa no hospital. Seu Epaminondas nomeou para substitui-lo seu décimo filho, nascido durante a espera, fruto de breve relacionamento com uma mulher que conhecera ainda na fila. Sim, o suplente era um bebê, motivo pelo qual concluiu-se que teria mais tempo e disponibilidade para a tarefa de esperar. Assim, deixou o pequeno no berçário (improvisado), guardando seu lugar.

Sem conseguir pendurar a velha bolsa no ombro ainda dolorido, e também sem bicicleta, seu Epaminondas caminhou até o ponto de ônibus. Fez sinal para o primeiro que passou, já que nem mais lembrava do coletivo certo. Ao girar a roleta, estranhou a tarifa. Teve a impressão dela ser quarenta centavos mais cara do que da última vez.

 

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