Cultura como ideologia II

Márcia Denser*
 
Na outra coluna com este mesmo título falei da cultura tal como é percebida em nossos dias, isto é, como veículo ideológico do neoliberalismo, contudo a partir de reflexões de alguns leitores, resolvi ir mais fundo no tema, donde o roteiro a seguir, uma condensação do artigo “Cultura e Democracia” [1], cuja proposta é marcar as principais linhas de força em jogo em torno da questão cultural, demonstrando com esta adquire ideologicamente uma importância capital.
 
Para o Iluminismo no século XVIII, a palavra “cultura” é sinônimo de “civilização”. Aqui cultura é o padrão que mede o grau de civilização de uma sociedade, um conjunto de práticas - artes, ciências, técnicas, ofícios - através das quais se pode avaliar e hierarquizar os regimes políticos segundo um critério evolutivo. Já no século XX, com a filosofia alemã, o conceito passa por uma transformação decisiva quando “cultura” se torna a diferença entre “natureza” e “história”.
 
A cultura é ruptura com a natureza. A ordem natural é regida pelas leis da causalidade e diz respeito à sobrevivência, à chamada Primeira Realidade (Bystrina), mas a ordem humana é ditada pelo universo simbólico ou semiosfera ou Segunda Realidade, e significa a capacidade humana de relacionar-se com o “ausente” e o “possível” através da linguagem e do trabalho. A dimensão humana da cultura é um movimento de transcendência para ultrapassar o tempo da existência (a morte) e o espaço (o ausente).
 
Portanto Cultura enquanto Segunda Realidade inaugura a História. A partir daí o conceito ganha uma extraordinária abrangência, pois a cultura passa a ser entendida como produção e criação de linguagem, religião, sexualidade, instrumentos e formas de trabalho, habitação, vestuário, culinária, música, dança, relações sociais, etc., enfim toda produção material humana ao longo do tempo. A cultura é o campo onde a sociedade elabora símbolos, institui práticas e valores, define o possível e o impossível, o sentido da linha do tempo (presente, passado e futuro), as diferenças no interior do espaço (sentido de próximo e distante, grande e pequeno, visível e invisível), valores como falso e verdadeiro, belo e feio, justo e injusto, instaura a lei, logo permitido e proibido, determina o sentido da vida e da morte, e então sagrado e profano.
 
Contudo, a marca da sociedade é a existência da divisão social, da divisão de classes, e esta institui a divisão cultural, donde a idéia de “cultura dominante” e “cultura dominada”. Graças às análises da ideologia, o lugar da “cultura dominante” é bastante claro: é dali que se legitima o exercício da exploração econômica, da dominação política e da exclusão social. Mas essa dominação tende a ser ocultada, e é nesse sentido que opera a cultura de massa, pois:
        
a. Separa os bens culturais pelo valor de mercado: obras caras são consumidas pela elite e as baratas e bregas pela massa. Institui-se a divisão entre elite “culta” e massa “inculta”;
        
b. Inventa a figura do “espectador médio”, isto é, aquele que tem capacidades mentais médias, gostos médios, conhecimentos médios e a quem ela oferece produtos culturais médios. Que significa isso? A indústria cultural vende cultura. E para vender tem que seduzir o consumidor, NÃO pode chocá-lo, provocá-lo, fazê-lo pensar, dar-lhe informações novas, mas SIM devolver-lhe, com novo modelito, tudo o que ele JÁ SABE, JÁ VIU, JÁ FEZ. A “média” é o senso comum petrificado que a cultura de massa devolve com cara de coisa nova.
 
c. Define cultura como lazer e entretenimento. Hanna Arendt apontou a transmutação da cultura sob os imperativos da comunicação de massa, isto é, a transformação do trabalho da cultura, das obras do pensamento e da arte, dos atos cívicos, esportivos, religiosos em entretenimento.
 
Do ponto de vista do processo criativo cultura é trabalho e trabalho duro, algo muito distante de repouso e lazer. E massificar é o contrário de democratizar a cultura, é a negação da democratização da cultura.
 
O fato é que ocorreram profundas transformações na experiência do espaço e do tempo, decorrentes das novas tecnologias. A fragmentação e a globalização da produção econômica engendraram dois fenômenos contrários e simultâneos: a dispersão temporal e a compressão do espaço. Tudo se passa aqui, sem distâncias, nem fronteiras, e tudo se passa agora, sem passado nem futuro. Fragmentação e dispersão do espaço e do tempo condicionam sua reunificação sob um espaço indiferenciado, plano, de imagens fugazes, e um tempo efêmero, desprovido de profundidade.
 
A profundidade do tempo e seu poder diferenciador desaparecem sob o poder do instantâneo, assim como a profundidade de campo, que define o espaço da percepção, desaparece sob o poder do lugar nenhum tecnológico. A telepresença e a teleobservação impossibilitam diferenciar entre aparência e sentido, virtual e real. Ao perdermos a diferenciação temporal, cessa a profundidade do passado, bem como a profundidade do futuro como possibilidade para ultrapassar situações dadas, compreendê-las e transformar seu sentido – eis o que se convencionou chamar de “condição pós-moderna” (Lyotard), quer dizer, a existência social e cultural sob a economia neoliberal.
 
Assim perdemos o sentido da cultura como ação histórica. Como funciona? Bom, algumas respostas dadas por estudantes em vestibulares de M&uacut

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