Cubanos e benzedeiras

Tanto o sonho como a prepotência podem acometer qualquer pessoa. Eu nunca tive o sonho ou a prepotência de ser o “bom”, ou mesmo de querer ser o melhor. Sei que sonhar é algo natural, mas mesmo o sonho precisa ser tangível.

Há aqueles que sonham ir além da capacidade que têm, e o fazem por provável ausência de autocrítica. Não conhecem a capacidade que têm e sonham em ser o “bom”. E há outros que querem ser ainda melhores que o “bom”. Há também os limitados que se imaginam o “bom”, quando não têm a prepotência de se achar o melhor. Estes são os professores de Deus.

Nunca sonhei em ir além de um profissional competente, solidário e humano. Imagino que tenho cumprido este papel, mas não sou eu que julgo. Não escrevo que sonhei ser uma pessoa séria e honesta porque isso, para a educação que recebi, é algo obrigatório.

Leia mais

Para trabalhar com seriedade, solidariedade e humanismo, sempre contei com amigos, amigas, assessores e assessoras que, a tendência de qualquer desvio, teciam criticas. Portanto, na vida profissional, se é mais ou menos competente quando se atua coletivamente, ouvindo os que te cercam.

A competência profissional fica restrita à própria profissão, enquanto a competência administrativa independe da profissão, por isso nunca fui daqueles que defendem que, para ocupar determinado cargo público, é preciso ter essa ou aquela formação. Exemplo: para ser ministro da Saúde, ser médico ou, para ser ministro dos Transportes, engenheiro.

Para ser ministro, o mínimo que se pede é que tenha noções de administração pública, que compreenda as políticas do setor, que seja sincero e humano. Não seja arrogante e ouça muito a assessoria da área em que vai atuar.

Para ser ministro da Saúde, além de ter a noção de administração publica, também é preciso ter noção do que é saúde pública e o que é o Sistema Único de Saúde (SUS). Se não souber, contrate uma boa assessoria e deixe-a falar por você.

Escrevo isso porque o ministro interino da saúde, Ricardo Barros, apesar de ter sido prefeito de uma cidade de porte médio, parece não ter noção do que é saúde pública e do que é o SUS. Se tiver noção, posso afirmar que as primeiras demonstrações políticas vão contra os princípios de saúde pública e do que é o SUS. Neste caso, é grave, pois não seriam erros mas sim uma atuação contra o SUS. Melhor dizer: para destruir o SUS.

Mas, além disto, ele tem feito algumas outras declarações catastróficas, como a que fez em Ponta Grossa, no Paraná, ao referir-se ao “Programa Mais Médicos”. Disse o ministro interino que em “setembro, 3.500 médicos vencem o seu prazo” no Mais Médicos e que “muitos vão permanecer, outros não. Nós vamos fazer um grande esforço no sentido que os médicos brasileiros preencham essas vagas”.

Não precisa fazer esforço nenhum, basta, como sempre foi feito, cumprir a lei e oferecer as vagas primeiro aos médicos brasileiros e, caso não sejam completadas, abrir, como dispõe a lei, aos médicos estrangeiros.

Como se não bastasse ignorar a lei, fez outra declaração ainda pior. O interino disse que “se tiver algum ponto em que médicos brasileiros não queiram ir, teremos lá um médico cubano. É melhor ter um médico cubano do que um farmacêutico ou uma benzedeira”.

Numa única frase, desrespeita duas profissões e a cultura de um povo. O interino desrespeita os médicos. Alguns podem achar que assim devem ser tratados os profissionais cubanos, que foram aonde os brasileiros não quiseram ir ou era insuficiente o número de profissionais brasileiros para cobrir todo o território. Eu e muitos outros médicos nos sentimos desrespeitados pelo interino e nos solidarizamos com os cubanos.

O interino também desrespeita os farmacêuticos, profissionais imprescindíveis para um bom sistema de saúde. Sei, o interino errou e chamou de farmacêutico o balconista da farmácia. Mas, de qualquer maneira agrediu um setor de profissionais, seja o farmacêutico, seja o balconista.

E, por fim - mas não é o fim da conversa - agrediu as benzedeiras e a nossa cultura popular. Não faz mal nenhum benzer uma pessoa. Aliás, qual de nós com mais de 50 anos de idade nunca fomos benzidos e, segundo nossas mães, melhoramos ou fomos salvos?

Interino, deixe de ser prepotente e, por favor, arrume uma assessoria competente, ouça-a ou deixe que ela fale pelo senhor.

Mais sobre saúde

Mais sobre Mais Médicos

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!