Crise na Turquia: quando as carroças puxam os bois

 

Jorge Mortean *

O grande hiato entre a imagem que nos chega da Turquia – e o seu atual cenário político conturbado – se deve basicamente pelo fato de que nós aqui não sabemos como aquele país é realmente composto. Assim como não se pode tirar o Brasil somente por Rio ou São Paulo, tampouco se pode tirar a Turquia somente pela moderna, rica e ocidentalizada Istambul.

O conservadorismo, em qualquer canto do mundo, é fruto da desigualdade social em vários níveis, produto da ineficiência do Estado não só em chegar de forma contundente nos rincões mais necessitados de instrução como também em ampliar a representatividade civil dentro do próprio processo de construção nacional.

E não podemos colocar a carroça na frente dos bois, pois é assim que conservadores ganham força. Um povo desprovido das ações de um Estado que não o representa é um povo largado à própria sorte, facilmente cooptado por fundamentalistas religiosos e políticos.

Não adianta querer imaginar que a parada gay em São Paulo seja amplamente aceita pela maioria da população do nosso país, assim como não são as minissaias que nós, turistas ocidentais, vemos em Istambul para o resto da Turquia. Não é por menos que nós somos o país que mais mata homossexuais no mundo e eles são um dos povos muçulmanos mais religiosos, um dos mais fervorosos.

E aquele país tem um agravante geopolítico internacional ainda pior: a eterna promessa de adesão à União Europeia, que acirra ainda mais a luta ideológica entre reformistas pró-ocidentais e conservadores islâmicos. Lembrando que, sem sombra de dúvida, a Turquia europeia é praticamente de Istambul para cá. De Istambul para lá, ou seja, em 90% do território, a mulher se cobre dos pés à cabeça porque quer, reza cinco vezes ao dia e não quer nem ouvir falar em biquíni na praia ou em uma garrafa de bebida alcoólica.

Assim como nós, a Turquia moderna (a república turca, fundada em 1923) surgiu pelas mãos de militares que em nada escutaram os anseios populares, que forçaram a modernização e nacionalização de uma sociedade multicultural a qualquer custo, sem instruí-la primeiro.

Ainda como nós, a Turquia hoje enfrenta uma concentração de renda absurda, um acesso desigual às benéfices do Estado e uma utopia política internacional que não condiz com sua estrutura sociocultural. Uma população multifacetada que sempre viveu traumas políticos por causa de uma crise de identidade que nunca conseguiu resolver, dado um projeto nacionalista que já nasceu desequilibrado.

Pobre Turquia, que sempre foi e sempre será Oriente Médio, afogada em seu próprio desespero por tentar deixar de sê-lo. Em vão.

* Consultor de Cultura e Negócios Internacionais (Brasil-Irã) da Mercator Business Intelligentsia. Geógrafo formado pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Estudos Regionais do Oriente Médio, é pesquisador das relações diplomáticas entre a América Latina e o Oriente Médio, é doutorando em Geografia Política, também pela USP. Atuou como professor do curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) e da Universidade Paulista (Unip).

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