Criminalidade elevada, população insegura, e tudo continua igual

Marilda Pansonato Pinheiro *

Recentemente, novos dados contendo velhas informações sobre a violência em São Paulo foram divulgados na imprensa. Os índices de criminalidade na capital e no estado paulista cresceram pelo sétimo mês consecutivo. O número de latrocínios na cidade de São Paulo, por exemplo, dobrou no primeiro bimestre deste ano. O número de homicídios também cresceu.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo instituto Datafolha, 71% da população não confia na política de segurança pública colocada em prática pelo governador Geraldo Alckmin. A mesma pesquisa mostra que três em cada quatro paulistanos acreditam que o governo esconde informações sobre a escalada da violência no estado.

A Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Adpesp), na luta pelos interesses da sociedade, vem insistentemente tentando conscientizar a população sobre a importância da Polícia Judiciária, da inteligência, que está esquecida. Não há dúvidas de que o aumento da violência está relacionado à falta de incentivo que o delegado de polícia, primeiro garantidor dos direitos do cidadão, recebe do governo do estado. Como consequência das péssimas condições de trabalho oferecidas, entre as quais se encontra o baixo salário (a classe em São Paulo ocupa o 25º lugar no ranking salarial entre os 27 entes federados), há uma debandada de delegados para outros Estados ou outras carreiras jurídicas.

A Secretaria da Segurança Pública tenta de todas as maneiras esconder os fatos, que mais uma vez são esclarecidos e comprovam a falência do sistema de segurança paulista e a instalação de uma verdadeira “guerra civil”. A falta de policiais civis em todas as carreiras, a inexistência de perspectivas profissionais e a impossibilidade absoluta de se investigar os crimes, exceto quando explorados pela mídia, que determina quais os crimes serão investigados, robustecem o lamentável cenário. Poderíamos esperar resultado diferente?

Há em São Paulo, já a algum tempo, uma política permanente de desestímulo à carreira de delegado de polícia. A escravidão permanente na equivocada cultura do “delegado de balcão” e o investimento maciço na Polícia Militar em detrimento da Polícia Civil, que amarga ainda o sucateamento e o descaso de décadas, são fatores que contribuem demasiadamente para a evasão de membros da classe, que notamos atualmente. A cada 10 dias, um delegado abandona a carreira por outra ou migra para outro estado, já que dispõe de outras 24 opções para escolher onde terá reconhecido seu trabalho e sua importância para a segurança pública.

Parcos avanços, frutos do árduo trabalho de convencimento promovido por associações de categorias policiais, principalmente pela Adpesp, e não por reconhecimento do governo, são anunciados de maneira pomposa para impressionar os leigos e a imprensa. Na realidade, as pequenas conquistas em questão não passam de uma calculada saída para uma crise judicial e institucional criada e alimentada pelo próprio governo. Ademais, se com tais conquistas alcançamos o 25º lugar no ranking salarial, qual seria nossa posição sem elas?

A verdade é que o delegado de polícia paulista continua recebendo um tratamento iníquo e injusto. Com uma policia judiciária pouco produtiva, mais criminosos permanecem impunes e se sentem cada vez mais encorajados a continuar cometendo delitos. Como sempre, a sociedade paga a conta. Como sempre, pagamos todos nós!

 

* Marilda Pansonato Pinheiro é presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Adpesp).

 

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