Coronavírus: o que deveríamos ter aprendido com o passado

Lê-se em alguns livros de história que Maria Antonieta, ao ouvir relatos de que o povo francês estava na miséria e não tinha recursos sequer para comprar pão, teria retorquido que “se não podem comprar pães, que comprem brioches”.

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Disputa-se a veracidade deste episódio. Há quem diga ter sido apenas uma intriga divulgada por revolucionários. Outros sustentam ter sido o paroxismo da insensibilidade. Jamais saberemos a verdade, enfim.

Dia desses, contemplando a pandemia instalada no planeta a partir de janeiro de 2020, fiquei a recordar este episódio. Acredite: há muito dele diante de nossas vistas.

Os miseráveis não tem acesso a água tratada e sabão para, através da higiene, se protegerem de eventual contágio? Ora, que usem máscaras!

Falta-lhes acesso à rede de saneamento básico, algo, digamos, básico em termos de saúde? Que fiquem todos recolhidos em suas casas, ora pois!

Levante-se. Vá à janela e contemple nosso mundo com olhos de ver. Aqui e ali, lá e acolá, estará escancarado um dos exemplos acima - acompanhado da inevitável fiscalização e repressão do Estado. Afinal, há que se evitar a propagação de uma epidemia.

Paralelamente, tal qual acontecia nos dias que antecederam a Revolução Francesa, movimenta-se a nobreza na eterna luta pela privatização dos lucros e socialização dos prejuízos - esta na forma dos resgates, benefícios fiscais de ocasião etc.

Cabe ainda uma outra referência àquele período. A culpa pelo desamparo da população, lá, era atribuída por alguns nobres aos rigorosos invernos de 1788 e 1789, que prejudicaram as safras! Tudo obra da natureza - uma senhora que sabidamente não faz discursos ou concede entrevistas. A culpada perfeita!

Aqui testemunhamos, igualmente, o brutal abandono dos povos. Escancararam-se, diante de uma pandemia prevista e previsível, sistemas de saúde no mais das vezes sucateados e abandonados - assim como as redes de saneamento básico. Saltou aos olhos a miopia dos sistemas econômicos e das administrações públicas.

E eis que, em repetição da história, o culpado pela miséria dos povos é um vírus! Uma forma de vida incapaz de defender-se em entrevistas coletivas ou pronunciamentos.

Que tal aprendermos com o passado? Afinal, passa da hora de discutirmos novas fundações para os já carcomidos prédios de nossa civilização.

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