Contra-elite e batalha discursiva

Márcia Denser*

Não é aconselhável que menores de dezoito anos se viciem nas idéias desagregadoras da contra-elite independente – e ela existe no mundo todo – até porque quem Bush mandaria para o Iraque ou quem ainda assistiria aos shows do KLB?

Ainda que para os jovens ocidentais, contemporâneos do capitalismo tardio, o futuro seja aquele lugar onde não existe emprego e, para os jovens brasileiros seja aquele lugar onde também não existe futuro, até porque o futuro já foi colonizado pelos mercados futuros e o nosso lugar no livre mercado é o da exclusão.

Enquanto não fizermos nada a respeito, a realidade será isso aí.

Aliás, por contra-elite não se leia Diogo Mainardi, o bocó de plantão posando de menino mau, lacaio e porta-voz dos interesses da elite em geral e dos Civita em particular, em prol do aprofundamento da burrice e da barbárie geral da nação. No subtexto de qualquer texto que escreva, ele nos sugere que é preciso vestir a camisa do Opressor, tomar todas, não dar nenhuma e, ainda por cima, achar ótimo! Nem que você tivesse caído da kombi da Apae quando bebê, não é, caro leitor? Infelizmente, salvo os membros da contra-elite de plantão que não se rendem à fascinação de nenhuma retórica nem à trama discursiva de amadores, os leitores acreditam no escriba citado.

Pois é, enquanto não fizermos nada a respeito, na mídia vai predominar isso aí.  

Os brasileiros em geral se rendem à fascinação de quem fala e escreve “difícil”, pois fixou-se a bobagem coletiva de que “palavras difíceis são iguais a idéias difíceis” – e isso é um dado cultural concreto em nosso país, comprovado por Antonio Cândido, contra-elite pertencente ao núcleo duro da contra-elite mas queridíssimo de todos, pois entre outras questões, nosso povo passou direto da tradição oral para a mídia elétrica e eletrônica (rádio e televisão) pulando a estação da leitura e da escrita – etapa que não se pula sem prejuízo do exercício e desenvolvimento da reflexão e do raciocínio lógico.

Aliás, a respeito, o mestre conta um caso saborosíssimo, a propósito do prazer que a gente do povo sente em ouvir oradores. Menino, ele perguntava ao empregado de seu pai que acabava de voltar de um comício: “Então, seu Antonio, como foi?”. E o outro: “Uma beleza!O Fulano falou na sacada da prefeitura quase duas horas. Nunca vi coisa tão bonita. Não entendi uma palavra, mas foi lindo!”.

A crer em Frederic Jameson, crítico neomarxista norte-americano, contra-elite requintadíssimo que floresce à sombra do inimigo (entre outras coisas, é professor diretor do programa de pós-graduação em literatura da Duke University) numa cultura de mercado a função epistemológica pertence à mídia, não mais à ciência, à religião ou à arte, e este é um fato sem precedentes na História, daí a razão de enfatizarmos reiteradamente neste espaço a necessidade desta ser responsável, uma vez que efetivamente tem o poder de interferir no sentido de transformar a realidade – para o melhor ou para o pior.
 
Nesta sociedade cuja condição de possibilidade é uma guerra que se eterniza, a luta se desloca para a batalha discursiva.

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