Cone Sul & consciência profunda

Márcia Denser*

Prefiro analisar o que está acontecendo em muitos países do Cone Sul – o surgimento de presidentes progressistas eleitos pelo voto popular, como Hugo Chávez da Venezuela, Michelle Bachelet do Chile, Evo Morales da Bolívia, e Luiz Inácio Lula da Silva do Brasil – menos como uma vitória da esquerda e mais como o renascimento do desejo popular generalizado de expressar nossos próprios valores, tradições, costumes e cidadania, passados o embasbacamento e a atroz rendição psicológica coletiva ao Capitalismo Globalizado Triunfante, 15 anos após o colapso da União Soviética e do chamado “socialismo real”.

Talvez na consciência profunda do povo – a massa produtiva atemporal e ahistórica, segundo Deleuze – tenha soado a hora do pêndulo retroceder, voltando a pulsar em suas raízes. E esse é um movimento irreversível e irresistível (não dá para explicar porque neste espaço, mas posso retornar ao assunto), malgrado os “varões sabedores” – assim chamadas por Machado de Assis aquelas “inteligências raras” que acabam de se equivocar completamente.

Leia mais

Mesmo porque, até há pouco, essa consciência esteve fascinada e como que paralisada com o chacoalhar dos guizos, trecos, trequinhos e trequetes, internetes e cululares da serpente neoliberal. Mas que não enchem barriga, não despertam emoção, paixão, espanto, apenas nos dopam e distraem dos fatos principais e estes continuam ainda piores: miséria, fome, doença, ignorância, desemprego para a esmagadora maioria da população produtiva. Que financia o privilégio de pouquíssimos. Uma das piores distribuições de renda do mundo. E já não temos um projeto de nação. Nação, porém, cujo sentimento persiste.

O projeto duma União de Países do Cone Sul, à semelhança da União Européia, parece ser agora a nova resposta, e a única. E não é preciso enumerar as vantagens advindas dessa união. O fato é que a população sul-americana, consciente ou não, já está atuando para tornar tal projeto realidade.

Aqui lembro as palavras de Noam Chomsky, que aconselha dizer a verdade, não ao poder – inclusive porque o poder já sabe a verdade – mas ao povo, pois este é o único que pode desarticular, derrubar e coagir o poder.

E não é precisamente isso que ele, o povo, está fazendo? A despeito das pressões sobre-humanas das elites e da respectiva mídia, pelo lado de dentro, e dos interesses norte-americanos, pelo lado de fora?

Continuar lendo