Comunicação e cultura na base de um novo modelo de desenvolvimento para Brasília

Chico Sant’Anna *

O desemprego é uma das principais preocupações dos eleitores que vão às urnas no dia 5. Em Brasília, essa chaga parece ser estrutural. Mesmo nos melhores momentos recente do crescimento econômico do Brasil, o volume de desempregados não ficou longe da casa das 200 mil pessoas. Na história da capital, as políticas econômicas e de geração de empregos sempre ficaram no binômio serviço público e distribuição de lotes para pequenos e médios empresários. É chegada a hora de se criar uma nova proposta de crescimento econômico, sustentável e capaz de se adequar às condições ambientais do Distrito Federal.

Brasília tem que se espelhar em cidades como Paris e Washington. Investir na economia sustentável. Produção de conhecimento, turismo e cultura são as melhores opções. Temos uma elevada concentração de produtores culturais – artistas, jornalistas, cineastas, vídeo makers, produtores de vídeo games, escritores... A cidade poderia ser um polo de produtos culturais, se aqui houvesse uma política editorial pública.

Uma das vocações de Brasília é melhorar explorar a indústria do saber e, nesse campo, a comunicação e a cultura se apresentam com grandes potenciais. Brasília possui a maior concentração per capita de jornalistas, proporcionalmente à população. A cada semestre, centenas de jornalistas, publicitários, relações públicas, produtores de rádio, cinema e TV se formam nas faculdades da cidade. Isso, sem contar com os que vêm de fora para tentar a vida na capital.

O polo de cinema está abandonado e a nossa imprensa é frágil. Temos menos veículos do várias outras cidades com menor poder aquisitivo. A imprensa das cidades do DF, a webimprensa e também as rádios comunitárias não podem ficar sem apoio. Elas são importantes para a democratização da informação e também na geração de emprego e renda.

Aqui falta uma política pública de comunicação, uma política pública editorial que incentive o surgimento não apenas de novos veículos de comunicação, mas que também viabilize o polo de cinema, o apoio a videomakers e gamemakers e a desenvolvedores de aplicativos e softwares. Paulínia, em São Paulo, e Vancouver, no Canadá, são bons exemplos de como uma política cultural associada a uma política fiscal possibilita desenvolver um polo de cinema e de produções televisivas. E essa é uma indústria não poluente que beneficia a todos. Desde o carpinteiro, pintor e o eletricista até os diretores de cinema, artistas e técnicos da área.

Além disso, urge a criação de um o sistema público de radiodifusão, com a revitalização da Rádio Cultura-DF, reabertura da TV Distrital e a implantação do canal cultural a que o GDF tem direito, por lei, na TV a cabo. Brasília precisa potencializar a liberdade de expressão, precisa de liberdade de informação. Esse sistema público pode ser, inclusive, um indutor de produções do polo de cinema.

Cultura e turismo

Nossos museus e bibliotecas estão caindo aos pedaços. Paradoxalmente, nos cofres do Banco Central existe o melhor acervo de Portinari do Mundo, apreendido de banqueiros falidos. Por que não temos um Museu Portinari em Brasília? Por que não criar o Museu do Homem Brasileiro, o Museu de História Natural do Brasil idealizado por Darcy Ribeiro? Por que não criar um aquário com a fauna e a flora aquática do Centro-Oeste e da Amazônia?

Mais espaços culturais, bibliotecas, museus, galerias, teatros etc. gerariam mais empregos, renda, atrairia mais turistas e os reteriam por mais tempo em Brasília. Temos que ser um polo de turismo nacional e local. Isso também assegura o desenvolvimento sustentável. A cidade está no centro da América do Sul e pode se transformar num importante hub (base de conexões aéreas) para todo o Brasil e países vizinhos. É preciso criar estímulos para que haja mais voos diretos chegando e saindo de Brasília.

Conselho Distrital de Comunicação

A Câmara Legislativa tem historicamente – salvo raras exceções – ignorado a questão da comunicação no DF. Não houve avanços no campo das comunicações. O Conselho Distrital de Comunicação, previsto desde o início na Lei Orgânica do Distrito Federal, nunca foi regulamentado. Governos e empresas impedem que ele se materialize. E as decisões da Conferência Nacional de Comunicações (Confecom) não foram implantadas. Naquela Casa, sobram representantes dos interesses das empresas de comunicação e falta um representante dos profissionais da comunicação que de fato conheça esses temas e seja comprometido com os trabalhadores, jornalistas, comunicadores, com a democratização dos meios de comunicação e a defesa da cultura nacional.

Um representante que lute para que a Câmara seja resgatada dos piores interesses que a dominaram nesses últimos anos para servir, realmente, aos maiores interesses dos brasilienses. Um representante que se paute pela

  • democratização dos meios de comunicação,
  • criação do sistema público de radiodifusão do DF,
  • pela garantia à liberdade de expressão,
  • pelos direitos dos trabalhadores da comunicação e da cultura,
  • que defenda uma política de comunicação e de cultura como base de um desenvolvimento saudável e harmônico para o Distrito Federal.

É necessário que o governo do Distrito Federal (GDF) faça internamente o seu dever de casa. No Distrito Federal, inexiste uma lei fixando piso salarial para profissionais de comunicação, como há para médicos e advogados. No setor público não há uma carreira profissional regulamentada e são raríssimos os concursos para que esses profissionais atuem no GDF, na Câmara Legislativa e no Tribunal de Contas do DF. Precisamos criar, a exemplo de outros Estados, as leis que assegurem no serviço público a jornada de trabalho de cinco horas para jornalistas e de seis horas para radialistas, bem como que nos concursos públicos seja garantida a exigência do diploma de nível superior para o exercício do jornalismo.

No dia 5, quando o brasiliense for às urnas, é importante que ele pense sobre o futuro de Brasília, a Brasília para os filhos e netos desse eleitor. Olhar para a realidade atual de São Paulo, com falta d’água, trânsito caótico, refém da especulação imobiliária é uma boa maneira de se antever aquilo que o brasiliense deve evitar. E o seu voto contribui para isso.

* Chico Sant’Anna, candidato a deputado distrital pelo Psol, é jornalista, documentarista e pesquisador acadêmico com mestrado pela Universidade de Brasília e com doutorado pela Universidade de Rennes -1, França.

 

Mais sobre cultura

Mais sobre as eleicões

 

Assine a Revista Congresso em Foco

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!