Como se produz uma onda

Está em cartaz no canal Telecine, da TV a cabo, um filme perturbador. Trata-se de uma produção alemã, de 2008, A Onda (Die Welle), dirigido por Dennis Gansel. O filme é baseado num fato real, ocorrido nos Estados Unidos, em 1971. Nos dois casos, no filme e no episódio real que o inspirou, um professor simula em sala de aula um experimento para provar como é fácil manipular massas e introduzir modelos autoritários de comportamento em uma sociedade. A experiência real aconteceu na Universidade de Stanford. A do filme foi transferida para um colégio secundário na Alemanha. Nos dois casos, as situações repetem-se na rapidez como os alunos compram a proposta do professor. E no desfecho trágico.

Atenção, no resumo abaixo, o filme vai ser contado. Mas é bobagem imaginar que isso faça com que se perca o interesse nele. Procure-o da mesma forma. É pedagógico.

No início, vemos o professor Rainer Wenger dirigindo-se em seu automóvel para o colégio em que dá aula. Ouve a todo volume um rock pesado, com uma letra que ataca e ironiza o próprio sistema educacional. Veste-se como os alunos. Tem cara de doidão. Vai se iniciar uma semana de projetos especiais no colégio e o professor Wenger quer dar aulas sobre anarquismo. Porque simpatiza com a ideologia e porque ela se aproxima do tipo de revolta daqueles que, como ele, vieram das classes mais baixas da Alemanha.

Os planos de Wenger de dar aulas sobre anarquismo vão por água abaixo. Na divisão das classes para a semana de projetos especiais, a turma de anarquismo fica para um professor careta e conservador. E Wenger vai dar aulas sobre autocracia. Autocracia: regime no qual há um único detentor de poder. Que pode ser um líder ou um grupo. Ou seja: uma ditadura. Provavelmente, não há na história exemplo de autocracia maior que a Alemanha nazista, na forma enlouquecida como a sociedade acompanhou a cultuou a personalidade de Adolf Hitler. Na primeira aula, estabelece-se a discussão: para os alunos, não haveria possibilidades de retorno de algo como o nazi-fascismo na Alemanha atual. A discussão instiga o professor Wenger: naquela semana, ele iria provar  se realmente havia ou não espaço para o ressurgimento de um outro modelo de autoritarismo como o nazismo.

Wenger, então, apresenta-se à sua classe como um líder. Exige que seus alunos passem a trata-lo como Her Wenger (Senhor Wenger). Que fiquem de pé em posição de sentido para responder às perguntas, com respostas que devem sempre se dar com frases curtas. Muda a posição das cadeiras na sala de aula de modo a que um bom aluno passe sempre a estar ao lado de outro que tenha dificuldades, de modo que eles passem a atuar em conjunto, um ajudando o outro. Propõe que o grupo passe a usar um uniforme, para eliminar desigualdades, sejam econômicas, sociais, de origem, etc. Todos passam a andar com uma mesma camisa branca de botões e calças jeans. Batizam o movimento que iniciaram de A Onda. Criam para ele um logotipo de fácil identificação. Elegem classe do professor conservador que leciona sobre o anarquismo como sua adversária.  Num determinado momento, o professor põe toda a sua classe para marchar em uníssono, com o único propósito de atrapalhar a aula de anarquismo, que acontece justamente no andar bem abaixo na escola. Uma saudação – que imita com o braço o movimento de uma onda – é criada.

Logo de saída, um dos alunos, com graves problemas de sociabilidade, adere entusiasmado às ideias da Onda. Os alunos começam a pichar pela cidade o logotipo que criaram. Não tiram mais a camisa branca do uniforme onde quer que vão. Fazem festas só deles. O professor é também o treinador do time de pólo aquático da escola. Quando o time vai jogar, os integrantes mais fortes da Onda comportam-se como milícias na porta do ginásio e não permitem a entrada no estádio de ninguém que não esteja vestindo a famigerada camisa branca. O aluno mais entusiasmado e com problemas de sociabilidade resolve passar a dormir ao relento, na porta da casa do professor.

Quando uma das alunas começa a questionar aquela loucura toda, os problemas começam. Seu namorado a agride, e a agressão acaba sendo a chave para ele perceber que é ela, ao divergir, quem tem razão. Mas àquela altura Her Wenger talvez já esteja embriagado pelo poder que exerce sobre o grupo. Quando ele se dá conta, talvez o ovo da serpente já tenha sido fecundado.

Wenger reúne todos os integrantes da Onda num auditório e pede que as portas sejam trancadas. Ele comenta, então, a rapidez como se inflamou a chama por eles criada. Afinal, passou-se apenas uma semana da primeira aula. Uma semana! Wenger diz que, então, ali está a chave para o futuro da Alemanha. A união daquele grupo, sem diferenças sociais. Todos unidos numa única causa. Para levar a Alemanha ao futuro glorioso que lhe é destinado! Fala alto! Fala rápido! Fala aos gritos! O aluno que tinha agredido a namorada que diverge do movimento surpreende-se com tudo aquilo. Começa a contraditar o professor. A dizer que tudo aquilo ali é uma loucura. O professor o chama de “traidor”. Diz que ele é um fraco, e manda que dois alunos o peguem e o levem até o tablado do auditório. Logo aparecem os voluntários mais fortes para pegá-lo e jogá-lo como um saco aos pés do professor.

É nesse momento que Wenger chama todos à razão. Mostra a eles como foi fácil manipulá-los e fazê-los aderir a um movimento autocrático, autoritário, ditatorial, que não permite divergência, que não permite contraditório, que não admite os que pensam diferente. Ele aponta para o aluno jogado ao chão, e pergunta: “O que vocês fariam agora, se eu mandasse: matariam ele”?

Chocados, os alunos percebem o quanto foram manipulados. Mas e o aluno com problemas de sociabilidade? Pela primeira vez, com a criação da Onda, ele não se sentia estranho, diminuído, deslocado. Tinha amigos. Sentia-se mais importante. Imensamente frustrado ao ver que tudo retornaria a ser como era antes da Onda, ele saca desesperado um revólver, e atira num colega. Aponta em seguida a arma para o próprio professor Wenger. Mas, num novo impulso, acaba metendo a arma na sua própria boca e se suicida. O filme acaba com o professor sendo levado preso por dois policiais.

Por que o filme perturba? Seria a Alemanha uma nação com características culturais específicas que facilitariam o florescimento de ideias autoritárias? Mas o experimento inicial que inspirou o filme não aconteceu nos Estados Unidos? E não haverá nada familiar nisso tudo?

Movimentos uniformes. Intolerância com altas doses de agressividade com relação a quem diverge. Manipulação que visa transformar qualquer crítica em manifestação partidária de um adversário político. Busca de transformar culpados em mártires. Esforço de extinção do debate. Onde mais haverá tudo isso?

O autoritarismo pode vir de onde menos se espera. Que o diga o anarquista professor Rainer Wenger.

É possível encontrar o filme na íntegra no Youtube. Abaixo, vai a primeira parte dele, para quem se interessar:

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