Colapsos

Márcia Denser*

O lançamento do livro Colapso – Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso (Rio, Record, 2005), de Jared Diamond, ganhador do Prêmio Pullitzer, uma pesquisa impressionante que trata dos fatores que fizeram sucumbir povos da Antigüidade e das catástrofes ecológicas decorrentes da intervenção humana, me fez lembrar um outro publicado há cerca de uma década. O Colapso da Modernização, do alemão Robert Kurz (Rio, Paz e Terra, 1992), naturalmente não ganhou o Pullitzer, nem poderia, pois fazia uma leitura inesperada da situação mundial após o desmoronamento da União Soviética: esse desmoronamento representaria o início do fim do próprio sistema capitalista.

Raciocinando com extrema originalidade, Kurz expõe sua tese concebendo a história do sistema mundial de produção de mercadorias em conjunto e em movimento, historicamente, por todo o planeta. O dado crucial do sistema foi a combinação de ciência, tecnologia e grandes investimentos. A concorrência no mercado mundial torna obrigatório o novo padrão de produtividade que os países socialistas não puderam atingir. A partir daí, a distância entre os dois blocos cresce e empurra os perdedores para o colapso, reunindo-os ao Terceiro Mundo desenvolvimentista – América Latina, Brasil –, que já fora derrotado na década de 80. Em síntese: a crise avança da periferia para o centro, isto é, começou no Terceiro Mundo, avançou pelos países socialistas e já chegou às periferias dos países ricos. A época presente é a das “sociedades pós-catastróficas”, nas quais prevalece a ruína em todos os níveis.

Para Jared Diamond, autor do outro Colapso, o pesadelo maior dos países ricos é o Terceiro Mundo querer ter o mesmo nível de luxo e riqueza. Ele se pergunta: o que acontecerá quando os povos do Terceiro Mundo finalmente se derem conta de que os padrões de vida do Primeiro são inatingíveis e que este se recusa a abandonar tais padrões?

Inadvertidamente, essa questão foi iluminada de outro ângulo – o nosso – por Paulo Arantes. Em artigo recente, ele observa que, passando da desgraça planetária à recente patologia nacional, fica a sensação de que só agora caiu o nosso Muro de Berlim. Como no resto do mundo depois da queda, os ganhadores de sempre estão livres novamente para odiar, ainda que o alvo do paradoxal ressentimento dos dominadores seja a massa dos espoliados.

Citando o historiador Luis Felipe de Alencastro, Arantes antevê a onda reacionária que o desrecalque do preconceito de classe, temporariamente amortecido pela eleição de um ex-retirante e metalúrgico à presidência da República, prenuncia: “Vem por aí uma explosão de raiva anti-povo, raiva de pobre, raiva de negro, raiva de trabalhador. Só que agora o povo pobre, além de feio, sujo e malvado, é também corrupto. O que se comprovou, na figura de seus representantes políticos no poder, foi uma antiga calúnia sociológica tucana. Por ocasião da primeira reforma da Previdência, a tucanagem intelectual descobriu que o simpático e imprevidente povo brasileiro era, além de fraudador contumaz da Previdência, um agente catalizador da corrupção nacional, o principal avalista da naturalização da trambicagem coletiva. Outra maneira de consagrar o crime de colarinho branco como prática duplamente popular”.

Refazendo a questão: o que acontecerá quando os pobres finalmente se derem conta de que os padrões de vida dos ricos são inatingíveis e que estes se recusam a abandonar tais padrões?

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