Cinismo e hipocrisia

Durante os últimos quatro anos do governo de Fernando Henrique Cardoso, exerci o mandato de deputado federal. Nesse curto período, o Brasil quebrou (economicamente) duas vezes, a inflação superou as metas estabelecidas, o desemprego passou, em algumas regiões do país, de dois dígitos e foram dezenas de denúncias de corrupção. Nenhuma denúncia foi investigada pela Polícia Federal (PF), pelo Ministério Público ou por alguma CPI.

Não foram investigadas pela PF porque os ministros da Justiça da época, sem exceção, cumprindo ordem de FHC, não permitiam. Na Procuradoria-Geral da República não existia um procurador-geral. Geraldo Brindeiro, que ocupava o cargo na época, era chamado de “engavetador-geral”.

E no Congresso Nacional não se aprovava nenhuma CPI, pois a maioria dos deputados e senadores da época, diziam, estava no “bolso” de FHC. Alguns estavam literalmente sendo sustentados, se não pelo bolso de FHC, por algum outro bolso, como foi o caso daqueles que, por dinheiro, votaram favoravelmente à reeleição de FHC.

A observação acima me veio à cabeça quando li que, no programa “Roda Viva”, o ex-presidente FHC declarou que “é preciso esperar para ver” se Lula é uma pessoa honrada. “[...] porque tem saído muita coisa que tem que ser passada a limpo”. Este tipo de declaração é cinismo.

Quanto a ele (FHC), não precisamos esperar por absolutamente nada para saber quem ele é. Não bastassem seus oito anos de Presidência para revelar quem é, agora suas memórias confirmam. Ao escrever que sabia que (durante seu governo) havia corrupção na Petrobras e nada fez para investigar, confessa que é prevaricador.

Não foi só esse o caso que deixou de investigar. José Eduardo Vieira de Andrade, antigo dono do Bamerindus, ex-ministro de FHC e ex-senador, disse com todas as letras que, na campanha de FHC, de 1998, houve caixa dois de campanha. Mas, como a PF era comandada pelos tucanos, ela nada fez, nada investigou. Na Procuradoria-Geral da República, Geraldo Brindeiro, o engavetador, mandou engavetar.

Poderia aqui fazer uma extensa lista de denúncias que deveriam, mas não foram, ter sido investigadas, mas lembrarei apenas algumas: Sivam, Pasta Rosa, Proer, BC/Marka Fonte Cindam, Sanguessugas. A política de privatizações de FHC é um caso à parte: trouxe um prejuízo ao Brasil e ao povo brasileiro difícil de ser contabilizado e deixou muitos amigos ricos.

Assim como poderia fazer uma lista enorme dos escândalos de corrupção do governo FHC, também poderia fazer uma enorme lista de políticos do PSDB, DEM e PPS que, hoje, fazem discursos legalistas moralistas, mas que estão sendo investigados e alguns deles, inclusive, condenados.

Para poupar tempo do leitor ou leitora, quero aqui lembrar da Operação Farol da Colina, realizada pela Polícia Federal em 2004 (governo PT/Lula). Essa operação desbaratou um esquema de envio ilegal de mais de US$ 3 bilhões (valor de hoje superior a R$ 12 bilhões) para o exterior com uso da Beacon Hill Service Corporation.

Um dos envolvidos e condenados como resultado dessa operação foi o ex-deputado federal pelo PSDB Vittorio Medioli. Ele foi condenado a cinco anos e cinco meses de prisão por crime contra o sistema financeiro. Só para refrescar: Medioli também fazia depósitos em bancos suíços.

Um dos homens fortes do PSDB de São Paulo, Robson Marinho, conselheiro e ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), teve decretado o bloqueio de suas contas por ser investigado por corrupção, no caso Alston. O caso Alston perpassa os governos de Mario Covas, Geraldo Alckmin e José Serra, todos do PSDB.

A hipocrisia é constatada nos discursos desses tucanos e vista nas fotos dos diários. Todos os dias são estampadas na imprensa fotos de moralistas sem moral pedindo golpe de Estado contra a Dilma, a democracia e o povo brasileiro.

Não vou descrever um por um os personagens que aparecem nessas fotos, mas é difícil encontrar um da foto dos golpistas em que a maioria não esteja sendo investigado por corrupção ou por suspeita de outro crime.

Em todas as fotos de golpistas que circulam, só um, o senhor João Pedro Boria Caiado de Castro, não aparece. Caiado não aparece porque está preso. Cumpre pena por roubo.

Não tenho dúvidas de que a maioria que pede golpe não é contra a corrupção. São hipócritas.

E, pela recentemente confissão feita por meio do livro de memórias, FHC é, no mínimo, um prevaricador.

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