Caso Battisti: Itália experimenta iscas

Esta é uma das prisões (imagem abaixo) que foram pensadas para alojar Cesare Battisti, se algum dia ele for pego. Ela une o sadismo comum das prisões italianas, como Regina Coeli e Rebibbia, com uma característica de extrema brutalidade.

As celas estão localizadas 10 metros abaixo do nível do mar. Cesare deve cumprir, além de duas vidas de prisão, um período inicial de alguns anos, onde será privado da luz natural e terá seus movimentos dificultados pelo pequeno tamanho da cela. Aliás, ninguém aí vive três anos, porque a doença, a desnutrição e a contínua tortura acabam com os presos em pouco tempo, o que é uma vantagem para quem sofre esta insanidade. Por isso, o mais provável é que Battisti, se for pego, fosse a Regina Coeli.

 

 

Denúncia de uma Mentira Diplomática

No último dia 17, o embaixador da Itália no Brasil, Antonio Bernardini, manifestou que seu país, no caso de prender Battisti, pensa em respeitar as leis brasileiras.

No Brasil não existe prisão perpétua, e Brasil foi condenado na Itália a DUAS PRISÕES PERPÉTUAS, mesmo que isso possa parecer ridículo a qualquer mente racional.

Cada vez que um condenado em outro país a prisão perpétua é extraditado desde o Brasil, o Estado brasileiro assina um compromisso com o país de destino de que não aplicará ao detento mais de 30 anos de prisão. Aliás, muitas vezes, apenas simulam assinar, como veremos no seguinte.

Quando, em novembro de 2009, o Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou a admissibilidade da extradição de Battisti, o relator, Cesar Peluso, disse que havia obtido da Itália o compromisso de que Battisti não deveria cumprir mais de 30 anos de prisão.

Posteriormente, esse compromisso não foi necessário, porque o presidente Lula, tendo em conta os riscos para a vida e a integridade física de Battisti na Itália, onde era ameaçado de morte e tortura, RECUSOU SUA EXTRADIÇÃO. Isso foi aceito pelo STF e Cesare ficou livre até agora.

Não obstante, soube-se, logo em seguida, que em lugar nenhum do processo da extradição existia um documento provando esse compromisso do qual falou Peluso.

Ou seja, ao dizer isso, o relator Peluso mentiu, tanto como tinha feito durante todo o período em que esteve aos cuidados do caso (e também depois), em que numerosos fatos enunciados eram falsos.

Mas, há algo pior. No final de 2007, Mario Clemente Mastella, ministro da Justiça da Itália representando um partido de centro, falou com os familiares dos quatro mortos que a Itália atribuiu a Battisti. As famílias pediam vingança contra Battisti que havia sido detido a começo desse ano no Brasil e deveria ser processado pouco depois.

Todos eles se queixaram de que “o Brasil tinha apenas prisão por 30 anos” e eles queriam que Cesare cumprisse as duas (?) penas de prisão perpetua de maneira completa (as duas?).

Mastella respondeu dizendo que as promessas que a Itália faria ao Brasil sobre a duração máxima de 30 anos era apenas uma fábula per fregare i brasiliani (para enganar os brasileiros). Referindo-se a Battisti garantiu que il farabutto (o palhaço) cumpriria prisão até seu último suspiro.

Claro, ele não pode prometer que faria a Battisti cumprir as duas penas, porque ele não tinha poder sobre o inferno. Quem deseje ler um texto documentado (em italiano) sobre as numerosas violações que Itália faz de seus promessas sobre assuntos penais pode ler o artigo deste link (já quem quer saber sobre outras mentiras diplomáticas, vai precisar ler muito mais, porém existe abundante literatura).

O motivo de esta denúncia não é porque eu acredite que Battisti, esteja onde for, com quem quer que seja, seria tão ingênuo de achar que trinta anos de prisão é uma ótima oferta. Aliás, Cesare disse publicamente, durante 2009, e foi publicado na mídia duas ou três vezes, que ele preferia morrer a voltar a Itália. Falou, muito dignamente, do sem sentido de viver um estado sub-humano imposto por uma gangue de políticos, juízes e policiais sádicos, e que a morte seria uma liberação. Aliás, todos sabemos que impedir o suicídio de alguém é praticamente impossível. Quando ficamos amigos, nós e nossas famílias, o assunto apareceu alguma vez discretamente.

O temor que me fez escrever esta denúncia é que estas afirmações “sedutoras” servem para viabilizar a traição, e alguns países são mestres nisso. Com efeito, não sei se Cesare está com um grupo organizado, ou com amigos, ou apenas com conhecidos. Porém, pode acontecer que muitas pessoas acreditem as mentiras dos algozes. Por exemplo, o procurador italiano Giuliano Turone, em seu livro sobre Battisti, diz que o Cesare deveria se entregar porque sua pena poderia ser reduzida por boa conduta, por produtividade intelectual na prisão, entre outras cretinices.

Como se faz, gostaria de saber, para reduzir o infinito? Porque duas prisões perpétuas significa dedicar duas vidas à prisão, mas também a vida eterna, para os que acreditam nisso. Turone esclarecia que Battisti poderia conseguir uma diminuição da pena a 20 anos, e depois talvez cumprir a metade ou menos. Milhares de presos políticos italianos morreram de velhos após 45 e até 50 anos de prisão.

Eu tenho uma experiência pessoal. Uma vez, alguns meses antes de Battisti ser liberado em 2011, um sujeito muito culto com acento romano apareceu em minha casa, dizendo-se amigo de Battisti. Após algum tempo de conversa, sugeriu-me que eu deveria dizer a Cesare que na Itália havia uma grande tendência à anistia dos casos dos anos 70, e que seguramente, ele, Battisti, seria anistiado. Eu não mordi a isca, porque nasci numa família italiana muito tradicional e sei como a vingança e o rancor são valores prezados nessa decadente cultura. Porém, outras pessoas talvez mordessem.

Portanto, peço aos amigos que apoiam nossa causa: viralizar esta denúncia, antes que alguém, involuntariamente, entre nessa mentira e vire delator. Qualquer que fosse o resultado, alguém que vira delator por engano e é uma pessoa sensível, não consegue viver tranquilo o resto da vida. Difícil imaginar algo mais nojento que a delação.

Neste link está o vídeo de Globonews, onde fala o embaixador. Ele é muito educado e usa um italiano muito fino. Não se confundam.

 

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