Brasília ainda em busca de si mesma

Brasília completou 51 anos na última quinta-feira desprezada por grande parte da mídia nacional, que ignorou a data, e brindada pelo patético provincianismo de uma imprensa local que não se cansa de mistificar as maravilhas da criação de Juscelino, Lucio Costa e Niemeyer.

Atitudes que, embora extremas, traduzem o comportamento típico que os jornalistas brasileiros costumam demonstrar em relação à capital federal. Uma minoria, composta basicamente por residentes, a venera. Há razões para isso. Poucas cidades oferecem a qualidade de vida que se encontra aqui. Muitos dos que nos últimos dias enalteceram Brasília encarnam algumas das milhares de histórias felizes que a cidade proporcionou. É nesse cenário que se forjam as representações, absolutamente irreais e fartamente encontradas nos jornais do Distrito Federal, de um território mágico e encantado. Onde os problemas ocupam um canto de página, apenas para emprestarem alguma fidedignidade às loas difundidas à exaustão.

Mas a grande maioria dos jornalistas se deixa guiar por outro tipo de construção simbólica. No lugar da utopia modernista de JK, o pesadelo do poder corrompido e corruptor, os escândalos, a incompetência, a fraude, a “ilha da fantasia” que conspira dia e noite, noite e dia contra os interesses nacionais. Claro que essa representação encontra vasto material para se alimentar nas roubalheiras, na pobreza de espírito e na arrogância que desfilam pelos corredores oficiais. Ela, no entanto, incorre igualmente em equívocos graves. Reduz o DF, unidade federativa na qual residem mais de 2,3 milhões de pessoas de perfis e origens bastante variadas, a Brasília monumental que aparece na TV. E exibe uma versão deformada do próprio poder, já que este, apesar de tudo, não é só tristeza e perdição.

Essa gente é capaz de fazer propostas exóticas. No auge da crise do panetonegate, houve quem propusesse, como antídoto contra a corrupção no planalto central, a supressão do direito dos habitantes do DF elegerem o governador e os legisladores locais. Como se o resto do Brasil estivesse imune à corrupção e ao destrato com a coisa pública. Como se menos democracia fosse a melhor solução para resolver os problemas da democracia.

Compreender Brasília ainda é uma questão não resolvida. Até porque os últimos 51 anos não foram suficientes para a cidade afirmar plenamente sua identidade. Brasília permanece em busca de si mesma. Se você está a fim de desvendar o enigma, uma leitura obrigatória é o livro Brasília aos 50 anos. Que cidade é essa?, organizado por Beth Cataldo e Graça Ramos (Tema Editorial, 2010). Como tira-gosto, vão de brinde trechos de um dos melhores textos da obra, “"A capital pós-imperial"”, do antropólogo e professor da Universidade de Brasília Gustavo Lins Ribeiro:

“Brasília foi uma ruptura explícita com o imaginário colonialista que identificou o Brasil com o litoral tropical e cujas capitais, Salvador e Rio de Janeiro, até hoje o retroalimentam. (...) Em contraposição às capitais anteriores, Brasília se afasta radicalmente da identificação Brasil = natureza a serviço da Europa. Não está marcada pela exuberância natural do Rio de Janeiro, geografia dada e cada vez mais degradada. É criação humana, planejamento, realização de atores concretos – aqueles que consolidaram as condições políticas preexistentes, a desenharam e a construíram”.

“[Os brasileiros, ao erguerem Brasília] Queriam dizer: somos diferentes, somos modernos, estamos no controle de nossa própria história. O capítulo colonial ficou para trás, no litoral. Eis aqui um ponto fundamental para pensar o lugar de Brasília não apenas no Brasil, mas nas Américas, em geral, e na América Latina, em particular: Brasília é a única capital das Américas que não está sobre um antigo sítio colonial”.

“Ao revelar sua condição de produto humano, a cidade planejada, em contraste com as cidades não planejadas, entra desfetichizada na história. Por isso, causa estranhamento. (...) dirão que Brasília é uma cidade artificial, como se houvesse cidade natural, construída pela natureza”.

“Brasília é uma ruína precoce do século 20. Seu planejador pensava que era possível mudar as relações de classes do país com um plano urbano. O socialismo de Lucio Costa foi logo derrubado pela sociologia do Brasil real”.

Nicolas Behr é o nome de um dos caras que mais se destacam na tradução desse universo estranho – ora fascinante, ora repugnante – a que dão o nome de Brasília. Ele é poeta, ambientalista e empreendedor (criou e mantém a empresa Pau Brasília, que vende plantas e mudas). Três coisas que a peculiar ecologia destas bandas de alguma forma parece inspirar. Os poemas que seguem estão em Laranja seleta (Língua Geral, 2007). Tirei de lá o que segue. Delicie-se:

como toda cidade mítica
a origem de brasília
se perde na noite dos tempos
noite que as luzes do eixão
tentam iluminar

O o O

bem, o sr. já nos mostrou
os blocos, as quadras,
os eixos, os palácios...
será que dava pro sr.
mostrar a cidade
propriamente dita?

O o O

os três poderes
são um só:
o deles

O o O

anunciaram a utopia
mas foi brasília que apareceu

O o O

naquela noite
suzana estava mais W3
do que nunca
toda eixosa
cheia de L2
suzana,
vai ser superquadra
assim lá na minha cama

O o O

nem tudo
que é torto
é errado
veja as pernas
do garrincha
e as árvores
do cerrado

O o O

evangelho da realidade
contra jotakristo, segundo são Lúcio
naquele dia jotakristo subindo aos céus
num pé de pequi
disse aos candangos:
felizes os que construíram comigo
esta cidade pois irão todos para as satélites

O o O

quando será inaugurada em mim
esta cidade?

O o O

o que não falei sobre brasília
o tempo dirá por mim


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