Bolsa com risco zero

Mauro Calil*

Em tempos de crise financeira, fortemente temperada por quedas acentuadas nas bolsas de valores, meu telefone costuma tocar incessantemente e minha caixa postal amanhece cheia. Os interlocutores, de ambos os canais, buscam sempre respostas para as mesmas perguntas: “Vai cair mais? Quando começa a recuperação? Devo vender tudo para sair? Devo vender para recomprar mais tarde? Devo comprar mais”?

Para estas perguntas, darei sempre uma única resposta: depende. Depende da prioridade dada e da premissa escolhida para seus investimentos em bolsa.

Via de regra, os investidores despejam na bolsa seus investimentos “normais”, ou seja, o que ao final de um mês, ano ou outro período qualquer estava acumulado em Renda Fixa e era chamado de poupança da família, economias, colchão financeiro, etc, e que passam a ser realocados para a bolsa justamente após um significativo período de alta nas cotações. Assim, a premissa é olhar o passado para prever o futuro, algo como dirigir um carro olhando pelo retrovisor.

Veja que esse comportamento traduz a falta de prioridade e comprometimento com as próprias economias. Para ser mais ácido, demonstra a inaptidão para planejar e controlar os investimentos pessoais. Mas isso pode ser mudado facilmente.

Em primeiro lugar, a mudança deve ocorrer na escala de prioridade dada ao quanto e o por que economizar. Em ato contínuo, estabelece-se a premissa de primeiro economizar para investir ao invés de investir as sobras. Vou explicar: cedo ou tarde, você perceberá que é importante economizar para o futuro, seja ele amanhã ou daqui a 20 anos, e que é melhor economizar para pagar à vista do que pagar juros. Quando isso acontecer, sua prioridade de economizar passou a ser mais importante do que gastar, ou seja, as aplicações financeiras não serão o destino das sobras orçamentárias, mas sim o primeiro destino do dinheiro e a bolsa de valores será considerada para os objetivos de maior prazo, como sua aposentadoria.

Se você investir antes de consumir, facilmente conseguirá dinheiro para aplicar na bolsa de valores SEM RISCO ALGUM. Veja que antes você tomaria todas as caipirinhas, iria a todos os restaurantes, compraria todos os CDs, iria na padaria da esquina de carro, somente se importaria com os pontos das multas de trânsito e não com seu valor, assinaria o pacote mais caro da TV a cabo, deixaria as luzes de toda a casa acesa, tomaria banhos demorados, diria sempre ‘sim’ a todas as vontades de seus filhos no shopping etc.

Todo este comportamento consumista resulta em perdas significativas e permanentes para as finanças. Luzes acesas gastam dinheiro e significam 100% de perda daquela quantia para seu bolso. Pagar por canais que você nunca assiste significa 100% de perda para seu bolso. Comprar inúmeros brinquedos que ficarão encostados ou serão destruídos significa 100% de perda para seu bolso. Pagar multas significa 100% de perda para seu bolso.

Enfim, tudo que você puder economizar dos 100% que já estão perdidos e passar a colocar na bolsa significa RISCO ZERO para o investimento em ações. Se sua conta de luz costuma ser de R$ 200 e passa para R$ 175, destine os R$ 25 para investimentos em bolsa. Repare que, no final, são os mesmos R$ 200. No entanto, ao invés de entregar (perder) a totalidade para a concessionária, você será sócio dela e passará a receber dividendos da empresa.

E se a empresa quebrar? Neste caso, você perde os R$ 25 da mesma forma que já teria perdido na sua situação original, ou seja, caso você gastasse e não investisse. Viu como o risco é ZERO?

Faça isso com tudo o que for possível. Estabeleça metas de economia para reinvestimento - 1%, 2% até chegar a 10% de sua renda. Mesmo que você não vá para a bolsa, ainda assim, seu risco será ZERO e suas finanças progredirão rapidamente.

*Mauro Calil é palestrante, educador financeiro e autor do livro “A Receita do Bolo” – www.calilecalil.com.br

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