BC muda, mas continua acanhado no corte de juros

Sérgio Belsito*

Com a elogiável mudança de postura do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) no fim do ano passado, reduzindo a taxa Selic, mesmo com as projeções do mercado anunciando elevação de pressões inflacionárias, o Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal) teve a satisfação de ver colocada em prática uma tese que esta entidade há muito defende, mesmo contrariando inúmeros analistas da nossa economia.

Entretanto, agora vemos muitos desses mesmos críticos, senão a sua totalidade, aplaudir essa mudança de postura do Copom, de redução da taxa Selic, com vistas a auxiliar a política macroeconômica a manter um dado nível de crescimento econômico, bem como de emprego, ainda que as metas de inflação se aproximem do limite superior e não do centro da meta, como vinha sendo praticado até então.

Reconhece-se agora que a questão não pode ser analisada apenas sob a ótica das pressões inflacionárias, decorrentes sobretudo da elevação dos preços de alimentos e de serviços, mas também da capacidade produtiva da economia e do cenário econômico externo, o qual mostra que as economias europeias e dos Estados Unidos ainda não têm as condições necessárias para a retomada do crescimento econômico autossustentado. A crise mundial é profunda e afetou fortemente os sistemas financeiros e as finanças públicas de muitos países desenvolvidos.

Assim, com base no atual momento da conjuntura econômica brasileira, com ausência de pressões próprias de economias com pleno emprego (inexistentes no caso brasileiro atual), bem como nas perspectivas de desempenho da economia mundial ao longo dos próximos anos, estudos técnicos desenvolvidos pelo Sinal indicam que o Copom poderia, na reunião da semana passada, ter  reduzido a taxa Selic em mais de 0,5% ponto percentual. Esse patamar, aprovado pelo comitê, foi na realidade acanhado. Defendemos, no mínimo, a redução de 0,75 %, para que a taxa Selic atingisse 10,25% ao ano, chegando a um dígito ao final de 2012.

Com isso, a dívida pública terá menor ritmo de crescimento, o que possibilitará menor pressão sobre a política fiscal na obtenção de elevados superávits primários, auxiliando a coordenação da política macroeconômica e liberando recursos para o atendimento de demandas básicas da sociedade como educação e saúde.

* Sérgio Belsito, presidente do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal)

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