Basta olhar pela janela: há uma crise institucional vindo ali! 

Opa, opa! Muita calma nessa hora! A troca de mensagens entre oficiais de altos cargos e patentes entre si e com Bolsonaro precisa ser analisada com atenção. Muita atenção. Analistas de várias cores ideológicas vêm alertando há algum tempo: estamos às vésperas de uma crise político-institucional. Do ex-presidente Fernando Henrique: “Vivemos mansamente o início de uma crise política. Com o que se preocupa quem tem nas mãos as rédeas do poder? Ao parecer, mais com o que lhe toca diretamente, como a reeleição, ou com os familiares, do que com os sinais de alarme que já estão soando fortes...”. Do ex-guerrilheiro e ex-deputado José Dirceu: “A tendência é um agravamento do cenário político-institucional e das condições econômicas e sociais para o país que vai atingir a todos indistintamente, o governo e seus apoiadores – a extrema direita, a direita liberal, as elites empresariais e financeiras e a mídia monopolista. Nem mesmo a esquerda, a única que faz o confronto frontal ao governo Bolsonaro, vai escapar”.

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A troca de mensagens mal-humoradas entre chefes militares e Bolsonaro não é uma simples exposição de divergências contornáveis, como a nota do ministro da defesa, Fernando Azevedo, com aval de todas as forças, dá a entender. Subjaz a ela a percepção de que o apoio incondicional das forças armadas a Bolsonaro começou a esfarelar. Os militares começam a se dar conta de que Bolsonaro não merece carta branca para governar como lhe aprouver. Ora, se não é possível dar uma carta branca dessas a alguém equilibrado, como entregá-la a quem não tem dado até hoje qualquer sinal de equilíbrio e bom senso? Os chefes militares estão convencidos de que há que se lhe impor os limites institucionais. Bolsonaro nunca entendeu que foi eleito presidente, e não imperador. E que, portanto, há que se cingir às regras impostas pelo equilíbrio entre os poderes. Que se submeter aos ditames constitucionais. Que agir em consonância com os princípios democráticos republicanos. Os militares de alto coturno finalmente estão se dando conta de que embarcaram numa canoa furada, e que chegou o momento de estabelecer as divisórias necessárias para que se consiga atravessar com alguma segurança o mar revolto até 2022. Tarefa delicadíssima, ressalte-se.

Quem manda aqui sou eu! 

 A declaração do comandante do Exército, Edson Pujol, não deixa dúvidas e estabelece muito claramente a divisória: “Somos instituições de estado, não somos instituições de governo, não temos partido. Nosso partido é o Brasil. (As Forças Armadas) são instituições permanentes, não mudamos a cada quatro anos a nossa maneira de pensar e como cumprir nossas missões”. Imediatamente Bolsonaro reagiu numa rede social que foi responsável pela nomeação de Pujol, e destacou seu poder como presidente da República, sob as ordens de quem as Forças Armadas estão sujeitas. Opa! Atitude típica de quem gosta de dizer, autoritariamente: - Quem manda aqui sou eu! Não demorou para o Ministro da Defesa, Fernando Azevedo sair para o deixa-disso. E divulgar uma nota cheia de dedos tentando baixar o fogo: “O Presidente da República, como comandante Supremo, tem demonstrado, por meio de decisões, declarações e presença junto às tropas, apreço pelas Forças Armadas, ao que tem sido correspondido”. Será mesmo?

Do general Paulo Chagas, ex-candidato ao governo do DF: “Há muito tempo deixei de dar atenção as pronunciamentos de fanfarrões, às suas ameaças absurdas e à exposição do seu despreparo e falta de maturidade”. Já para o general Santos Cruz, o Brasil “precisa de seriedade e não de show, espetáculo, embuste, fanfarronice e desrespeito”.

Ora, se eles não se entendem e a toda hora é preciso alguém por panos quentes, fica claro que as coisas não vão bem. Quando são necessárias notas oficiais é porque tem cheiro de queimado no ar. As labaredas que têm escapado indicam o perigo de o fogo sair do controle.

Mourão, um vice incômodo 

Sobre o afastamento do presidente e seu vice, Bolsonaro tem sido de uma clareza cristalina. Outro dia afirmou que há uma semana não falava com ele. Várias vezes já peitou Mourão, seja em reação às posições do Mourão aceitando a vacina produzida pelo laboratório chinês em convênio com o Butantan, que Bolsonaro desaprova, seja em relação ao tratamento do vice à questão das queimadas na Amazônia, seja pela aceitação por Mourão da vitória do democrata Joe Biden, seja pelo apoio de Mourão à ideia de expropriação de terras dos autores de crimes ambientais. "Se alguém levantar isso aí, eu simplesmente demito do governo, a não ser que essa pessoa seja 'indemissível'", trovejou Bolsonaro.

A cabeça do capitão está cada vez mais quente, agora com a derrota fragorosa dos candidatos que ele apoiou por aqui, somada à derrota até agora não aceita por aquele gorducho fanfarrão amuado lá dos Estados Unidos. É preciso urgentemente conter o incêndio. Notas oficiais são importantes, mas não têm o poder de conter o fogaréu que se avizinha. É a hora de chamar (bombeiros) “profissionais”, como dizia o velho Tancredo Neves. Antes que o fogo atinja os paióis de pólvora.

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