Balanço de 2011

Concordo com o editorial de quarta-feira última da Carta Maior que avalia como um grande fiasco a gestão do prefeito paulista, Gilberto Kassab, ora em seu último ano, bancada que foi, em 2008, pela imprensa paulista, como uma espécie de revide à reeleição de Lula dois anos antes. Foi a manipulação desse caldo de cultura que deu ao pupilo de Jorge Bornhausen – a fina flor da ultradireita, sujeito medíocre e dissimulado, com falsos ares de bonzinho & certinho – mais de 60% dos votos no 2º turno das eleições.

A conta da fraude acaba de chegar e representa, em si, uma denúncia do jornalismo que o enfiou goela abaixo do eleitor, abstendo-se, naturalmente, de qualquer autocrítica.  Em fim de mandato, a tal administração patrocinada pelo anti-petismo midiático carrega um atestado de fracasso em praticamente todas as áreas sensíveis à vida da metrópole: transportes, educação, saúde, prevenção de enchentes. Seu único ponto forte: a parada gay – não é sintomático? (pra dizer o mínimo).

Pesquisas dos mesmos veículos que o elevaram aos píncaros da glória, com factóides como 'A Cidade Limpa', indicam que um candidato apoiado por Kassab teria hoje rejeição de 49% dos eleitores. Outros 40% classificam a sua gestão como um desastre. O bombardeio pode ser uma advertência à criatura que ensaia voo solo com seu PSD, num momento em que o conservadorismo se ressente de nomes e requer unidade para renovar a sua artilharia política anti-socialóide em outubro.

Embora desfrutável, a ascensão e a decadência de Kassab devem servir de alerta. Assim como fez de uma nulidade um case eleitoral vitorioso, a mídia poderá regenerar  vampiros de maior calibre, vendendo-os como “gestores capazes” (capazes do quê mais? sobrou alguma coisa a “indigestar”?). A melhor denúncia do engodo é confrontá-lo desde já com as respostas inovadoras e criativas, que surgiram sobretudo neste último ano – com ênfase, pela visibilidade global, da Ocupação de Wall Street – sintonizadas com as aspirações urbanas e atentas às lições oferecidas pela crise mundial em outras metrópoles.

Na esfera geopolítica, 2011 foi um bom ano para a esquerda mundial sob vários ângulos, segundo Immanuel Wallerstein. As razões fundamentais devem-se naturalmente às condições econômicas negativas que atingem a maior parte do planeta. O desemprego, que era alto, cresceu ainda mais. A maioria dos governos, endividados e sem grana, novamente tenta impor a velha receita neoliberal que, a longo prazo, não dá certo para ninguém:  medidas de austeridade contra a população e de proteção em favor dos bancos.

O resultado foi a revolta global, expressa no que o movimento Occupy Wall Street chama de “os 99%”. Os alvos são a excessiva polarização da riqueza, os governos corruptos e sua natureza essencialmente antidemocrática. Se o Occupy Wall Street, a Primavera Árabe e os Indignados não alcançaram tudo o que esperavam, conseguiram alterar o discurso mundial, levando-o para longe dos mantras ideológicos do neoliberalismo, isto é, fixando na pauta temas como desigualdade, injustiça e descolonização.

Pela primeira vez, as pessoas comuns passaram a discutir a natureza do sistema em que vivem, não mais considerando-o natural ou inevitável. Agora, a questão para a esquerda mundial é como avançar, convertendo este novo discurso em ação e transformação política. O problema pode ser exposto de maneira muito simples: ainda que exista, em termos econômicos, um abismo claro e crescente entre um grupo muito pequeno (o 1%) e outro muito grande (os 99%), a divisão política já não segue o mesmo padrão. O fato é que as forças de centro-direita ainda comandam metade da população politicamente ativa no mundo.

Concordo também com Wallerstein quando este considera que a esquerda que aí está não tem força de unificação política de tais movimentos, nem a longo ou curto prazos. No momento, as piores e mais críticas divisões dentro da esquerda é quanto às eleições. A respeito, não existem duas, mas três posições: existe o grupo mais radical, que suspeita profundamente de eleições, argumentando que participar delas não é apenas politicamente ineficaz, mas reforça a legitimidade do sistema mundial existente.

Os outros admitem que é crucial participar de processos eleitorais, mas estes se subdividem: há os chamados “pragmáticos” – porque querem trabalhar pelo lado de dentro – dentro dos maiores partidos de centro-esquerda quando existe um sistema multipartidário funcional, ou dentro do partido único quando a alternância parlamentar não é permitida. E há os que condenam essa política de escolher o mal menor, sendo a favor do voto em quem for “genuinamente” de esquerda.

Mas seja qual for a posição, o importante é participar do processo eleitoral. Porque é preciso considerar que, a curto prazo, 99% está sofrendo, e esse sofrimento é sua prioridade: tentar sobreviver e ajudar suas famílias e amigos a sobreviver. Se pensarmos nos governos, não como agentes de transformação social, mas como estruturas que causam o sofrimento a curto prazo, por meio de decisões políticas imediatas, talvez a esquerda mundial seja obrigada a agir. E agir para minimizar a dor exige participação eleitoral. Mas não há uma resposta-padrão para tal debate. Que diz respeito, muito mais, à situação tática de cada país.

O segundo debate fundamental presente na esquerda é entre o desenvolvimentismo e o que pode ser chamado de prioridade na mudança da civilização. Pode-se observar tal debate na América Latina – especificamente em países como Bolívia, Equador, Venezuela. Na América do Norte e Europa, nas questões entre ambientalistas/verdes e os sindicatos, que priorizam a oferta e manutenção do emprego.

De um lado, a opção desenvolvimentista, apoiada por governos de esquerda ou por sindicatos, sustenta que, sem crescimento econômico, não é possível enfrentar as desigualdades econômicas do mundo de hoje – tanto locais como globais. Esse grupo acusa o oponente de apoiar, pelo menos objetivamente e talvez subjetivamente, os interesses das forças de direita.

Os que apoiam a opção antidesenvolvimentista dizem que o foco no crescimento econômico está errado em dois aspectos: 1) É uma política que leva adiante as piores características do sistema capitalista; 2) E é uma política que causa danos irreparáveis – sociais e ambientais.

Essas diferenças poderão ser superadas nos próximos cinco ou dez anos? Não se sabe. Mas se não forem, acreditamos que a esquerda mundial possa ganhar nos próximos vinte ou quarenta anos, a batalha fundamental.

Quando se definir que tipo de sistema que irá suceder o capitalismo, ou seja, quando este sistema entrar definitivamente em colapso. E, neste ponto, lembro Giovanni Arrighi (O Longo Século XX): o problema não é “se”, mas “quando” o Capitalismo entrará definitivamente em colapso.

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