Aula argentina

A parceria entre argentinos e espanhóis pode nos ensinar a jogar futebol e fazer cinema. No último caso, o mais recente exemplo se chama “Um Conto Chinês” (Un cuento chino, 2011), que traz o ator Ricardo Darín no papel de um homem solitário que acaba abrigando um chinês perdido em Buenos Aires.

Com ritmo e elegância - e provavelmente com um orçamento modesto – a comédia passeia sem maiores problemas por temas complexos como a dificuldade de relacionamento nesses dias malucos e globalizados, e o limite de nossa solidariedade para com o próximo. Principalmente se esse próximo não for tão próximo assim.

Diria até que a obra consegue, mesmo sem qualquer intenção, ser de um cristianismo exemplar e possível (porém não compulsório) para uma boa parte de nós.

O filme acaba por usar a impaciência do protagonista para suavizar a mesma denúncia de sempre: a falta de um sentido maior à nossa existência. Em consequência, rituais são criados como forma de compensar esse incômodo vazio que tortura, principalmente na hora de dormir; muralhas são erguidas para evitar maiores aproximações de amigos e amores; histórias são colecionadas para servirem de bússola em alguma hora.

Confesso sem qualquer pudor que admiro a capacidade dos argentinos de fazer cinema. Até a luz por lá parece ser mais interessante para a sétima arte... Mas essa película dos vizinhos também deve ser vista pelos nossos como mais uma possibilidade de caminho a ser trilhado.

Sim, é possível fazer algo de qualidade numa cozinha pequena encardida, com atores sentados à mesa que suporta apenas café e pão francês. E sem manteiga. Partindo de um bom roteiro, tudo é possível. Inclusive um bom filme.

Talvez esteja novamente enganado, mas percebo uma necessidade qualquer do cinema nacional de sempre querer fazer algo grandioso demais, caro demais, imponente demais. Bobagem! Temos é de usar croniquetas de nossa gente e levá-las às telas, sem nenhuma obrigação de usar o sexo e a violência a qualquer custo.

Se fôssemos iranianos, talvez existisse um filme no qual um grupo de amigos faria uma churrascada daquelas com menos de R$ 20. Pouco provável fazer um filme apenas com isso? Então, sugiro uma olhada no filme “O Jarro”...

Delicadeza. Eis uma palavra, um conceito que deveria ser mais comum em nossas produções cinematográficas. Esqueçamos, ao menos um pouco, o que disse Nelson Rodrigues: “Nada mais idiota do que fazer filmes sem violência para uma platéia de violentos”.

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