As vozes das ruas

Encher as ruas para dizer “fora” é mais do que responder “não” em pesquisa de opinião. Não dá, portanto, para desconsiderar os atos de 15/08, em especial em São Paulo, ainda que não tenham sido, como não foram, aquelas “10 horas que abalaram o país”, como esperavam seus organizadores.

Há um generalizado mal estar no país, que perpassa todas as classes sociais. Por outro lado, esse estado de descontentamento não significa crença em “alternativas” como Michel Temer (PMDB) ou Aécio Neves (PSDB). A crise é também de falta de confiança em qualquer força política relevante! A depressão econômica contribui para a cara fechada de nossa gente: tudo está mais caro e quase 400 mil postos de trabalho foram extintos este ano, sem contar a violência brutal e galopante.

A superação da crise política e econômica passa por processos bem mais complexos, que só começarão a ser resolvidos por reformas profundas, de base. Mudar quem governa não adianta se não forem alterados o sistema político e o modelo econômico. Ele segue dominado pelas empreiteiras incriminadas na Lava Jato e pela descrença generalizada na nossa combalida democracia representativa.

Na superfície, que se agita, evidencia-se uma ebulição política, por um lado, e o acordão para a “governabilidade”, envolvendo grandes corporações econômicas, incluídas as da mídia. Acredita-se que no andar da carroça do sistema as abóboras vão se ajeitar.

Os setores dominantes consideram que um processo de impeachment da presidente tumultaria ainda mais o “ambiente de negócios”. A “Agenda Brasil”, urdida pelo novo “condestável” da República, Renan Calheiros, está na pauta, como tábua de salvação (índios, trabalhadores, ambientalistas, clientes de planos de saúde que se cuidem!).

Dilma não tem carisma, empatia e liderança. Mas foi eleita pela maioria dos brasileiro(a)s há 9 meses. Seu governo, terceirizado, é o da ortodoxia financeira de Levy, que tanto agrada aos tucanos e demistas, e do toma-lá-dá-cá do PMDB ‘light’.

O clamor contra a corrupção, muito importante, se apequena por ser seletivo. Ética de ocasião, honestidade seletiva?

Não se preocupem os que ‘querem sossego’, como o finado (e agitado) Tim Maia: o velho pacto das elites já está em curso, arrumadinho. Até porque, a Lava Jato, se for mesmo fundo, vai pegar QUASE TODOS OS PARTIDOS do sistema. Lembremos que 28 dos 32 partidos existentes no Brasil receberam grana das corporações acusadas de corrupção (exceções: Psol, PSTU, PCB e PCO). Há, portanto, um mar poluído de cumplicidades. Nada mudará substancialmente, pelo menos por enquanto.

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