As mulheres e o Terceiro Ato da Vida

Em oito de março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Nada mais justo do que dedicar a elas este artigo, em reconhecimento a tudo que devo às muitas mulheres que passaram por minha vida, em meus quase cinquenta anos de idade. A começar pela própria vida, que devo à minha mãe, Raimunda. Batalhadora incansável, ela sempre lutou pelo sucesso dos sete filhos que trouxe ao mundo para constituir a família Granjeiro. A ela se juntou, mais tarde, Ivonete, a quem me uni pelo matrimônio e que é mãe de meus dois filhos, Gabriel e Matheus. Ao homenagear as duas, rendo minha homenagem também às centenas de mulheres que ao longo dos anos me ajudaram – e ainda ajudam – em meu trabalho de educador e empreendedor.

No serviço público brasileiro, as mulheres são hoje maioria. Correspondem a 55% dos servidores. Causa ou consequência disso, nos concursos públicos elas também predominam sobre os homens, seja em quantidade, seja até, eu diria, em qualidade. No nosso Gran Cursos, elas também os superam com grande vantagem.

Não à toa, temos uma mulher na presidência da República, temos ministras de Estado, temos deputadas, temos senadoras, temos prefeitas. Esse talvez seja mais um dos efeitos da globalização, já que o domínio feminino está ocorrendo em todo lugar. Basta mencionar, por exemplo, as líderes Angela Merkel, Cristina Kirchner e Hillary Clinton. As mulheres um dia serão donas do mundo, tenho certeza.

Ao pesquisar o tema da questão feminina para este artigo, encontrei em minha caixa de e-mails um vídeo que mexeu com a minha sensibilidade. Cada palavra que ouvi nele se encaixa como uma luva naquilo que desejo dizer às homenageadas do mês. O título é “Jane Fonda: o terceiro ato da vida”. Nele, essa grande e linda atriz dos anos 1960/1980 deixa uma importante mensagem sobre tema que tem me preocupado muito, já que estou prestes a me tornar um cinquentão.

Lady Jayne Seymour Fonda nasceu em Nova Iorque e é uma mulher que, embora cultuada pela beleza nas telas, sempre marcou presença por suas ideias. O vídeo que tanto me impressionou é justamente de uma de suas palestras. Reproduzo as palavras de Jane, na íntegra, com a certeza de que a mensagem ajudará a tornar todos os que a lerem pessoas melhores, mais amigas, mas tolerantes, menos belicosas, mais gratas, e, sobretudo, mais capazes de amar o próximo, o seu trabalho e a si mesmas. É uma leitura indicada a meus professores, meus funcionários e meus alunos, e não apenas às mulheres, mas aos homens também.

Boa leitura e aproveitem os pensamentos de Jane Fonda, uma mulher excepcional!

“Houve muitas revoluções no último século, mas talvez nenhuma tão significativa quanto a revolução da longevidade. Estamos vivendo, em média, hoje, 34 anos a mais do que nossas bisavós. Pensem sobre isso. Isso é um completo segundo período de vida adulta, que foi adicionado à nossa expectativa de vida. E, ainda assim, para a maior parte, nossa cultura ainda não se posicionou sobre o que isso significa. Ainda estamos vivendo com o velho paradigma da idade como um arco. Essa é a metáfora. A velha metáfora. Você nasce, atinge o auge na meia idade e declina para a decrepitude.

Idade como patologia. Mas muitas pessoas hoje – filósofos, artistas, médicos, cientistas – estão lançando um novo olhar para o que chamo de terceiro ato: as três últimas décadas da vida. Eles percebem que isso é, na verdade, um estágio de desenvolvimento da vida com sua própria significância, tão diferente da idade madura quanto a adolescência é da infância. E estão questionando – todos nós deveríamos estar questionando – como usamos esse tempo? Como vivê-lo com sucesso?

Qual é a nova metáfora apropriada para envelhecimento? Passei o último ano pesquisando e escrevendo sobre esse assunto. E descobri que uma metáfora mais adequada para o envelhecimento é uma escadaria – a ascensão para o topo do espírito humano, trazendo-nos para a sabedoria, completude e autenticidade. De forma nenhuma a idade como patologia; idade como potencial. E adivinhem: esse potencial não é para poucos felizardos. Acontece que a maioria das pessoas acima de 50 sente-se melhor e menos estressada, e menos hostil, menos ansiosa. Tendemos a ver os itens comuns mais que as diferenças. Alguns dos estudos dizem até mesmo que somos mais felizes. Isso não é o que o que eu esperava, acreditem. Venho de uma longa linhagem de depressivos.

Quando me aproximava dos meus 40 anos, assim que eu acordava de manhã, meus seis primeiros pensamentos eram todos negativos. E me assustei. Pensava: Puxa vida, vou me tornar uma velhota mal humorada. Mas, agora que eu estou, de fato, precisamente no meio do meu terceiro ato, percebo que nunca fui mais feliz. Tenho uma tremenda sensação de bem-estar. E descobri que quando você está dentro da velhice, em vez de olhar para ela do lado de fora, o medo se aquieta. Você nota, você ainda é você mesma.

Não quero romantizar o envelhecimento. Obviamente, não há garantia de que ele seja um tempo de fruição e crescimento. Alguma coisa disso é, obviamente, genética. Um terço disso, de fato, é genético. E não há muito que possamos fazer sobre isso. Mas isso significa que, para dois terços, quão bem desempenhamos no terceiro ato, podemos fazer algo. Vamos examinar o que podemos fazer para tornar esses anos adicionais realmente bem-sucedidos e usá-los para fazer a diferença. Deixem-me dizer algo sobre a escadaria, que parece ser uma metáfora esquisita para os idosos, considerando o fato de que muitos idosos são desafiados por escadas. Eu mesma estou incluída.

Como sabem, o mundo inteiro opera com uma lei universal: entropia, a segunda lei da termodinâmica. Entropia significa que tudo no mundo está num estado de declínio e decadência, o arco. Há apenas uma exceção a essa lei universal, e isso é o espírito humano, que pode continuar a evoluir em direção ao topo da escadaria, trazendo-nos para a completude, a autenticidade e a sabedoria.

E aqui está um exemplo do que quero dizer. Essa ascensão rumo ao topo pode acontecer face a desafios físicos extremos. Cerca de três anos atrás, li um artigo no New York Times. Era sobre um homem chamado Neil Selinger, 57 anos de idade, um advogado aposentado que tinha se juntado ao grupo de escritores da Faculdade Sarah Lawrence, onde encontrou sua voz como escritor.

Dois anos depois, ele foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, comumente conhecida como doença de Lou Gehrig. É uma doença terrível, é fatal. Ela devasta o corpo, mas a mente permanece intacta. Em seu artigo, o Sr. Selinger escreveu o seguinte para descrever o que estava acontecendo com ele.

E cito: “À medida que meus músculos enfraqueciam, minha escrita se tornava mais forte. À medida que lentamente perdia minha fala, ganhava minha voz. À medida que encolhia, eu crescia. No momento em que perdi tanto, finalmente comecei a encontrar a mim mesmo.”

Neil Selinger para mim é a personificação da subida da escadaria em seu terceiro ato. Todos nasceram com espírito, todos nós, mas, às vezes, ele fica soterrado debaixo dos desafios da vida, da violência, do abuso, da negligência. Talvez nossos pais sofressem de depressão. Talvez eles não fossem capazes de nos amar, além daquilo que realizamos no mundo. Talvez ainda soframos com uma dor psíquica, uma ferida.

Talvez experimentemos a sensação de que muitos de nossos relacionamentos não tiveram uma conclusão. E assim podemos nos sentir inacabados. Talvez a tarefa do terceiro ato seja terminar a tarefa de encerrar a nós mesmos.

Para mim, ele começou quando me aproximava do meu terceiro ato, meu aniversário de 60 anos. Como era para eu viver? O que era para eu realizar nesse ato final? E percebi que deveria saber onde estivera. Então, voltei e estudei meus dois primeiros atos, tentando ver quem eu era na época, quem realmente era, não quem meus pais ou outras pessoas me disseram que eu era, ou me tratavam como se eu fosse. Mas, quem eu era? Quem foram meus pais, não como pais, mas como pessoas? Quem foram meus avós? Como eles trataram meus pais? Esse tipo de coisa.

Descobri, alguns anos atrás, que esse processo pelo qual passei é chamado pelos psicólogos de ¢fazer uma análise da vida¢. E dizem que ela pode dar nova significância, clareza e sentido à vida de uma pessoa. Você pode descobrir, como eu, que muitas coisas que você costumava pensar que eram falhas suas, muita coisa que costumava pensar sobre você mesma, na verdade não tinham nada a ver com você. Não era falha sua; você estava bem.

Você é capaz de se libertar, de se libertar do seu passado. Você pode mudar sua relação com seu passado. Enquanto estava escrevendo sobre isso, encontrei um livro chamado ¢Em busca de sentido¢, de Viktor Frankl. Viktor Frankl foi um psiquiatra alemão, que passou cinco anos em um campo de concentração nazista. Ele escreveu que, enquanto estava no campo de concentração, poderia dizer, se eles (prisioneiros) fossem libertados, quais pessoas estariam ok e quais não estariam. E ele escreveu isto: Tudo o que você tem na vida pode ser tirado de você, exceto uma coisa: sua liberdade de escolher como você responderá à situação.

Isso é o que determina a qualidade de vida que vivemos, não se fomos ricos ou pobres, famosos ou anônimos, saudáveis ou sofredores. O que determina nossa qualidade de vida é como nos relacionamos a essas realidades, que tipo de significado atribuímos a elas, que estado mental permitimos que elas incitassem. Talvez o objetivo principal do terceiro ato seja voltar e tentar mudar nossa relação com o passado. Acontece que estudos cognitivos demonstram que, quando somos capazes de proceder assim, isso se manifesta neurologicamente em caminhos neurais no cérebro.

Veja se você, ao longo do tempo, reagiu negativamente a eventos passados e a pessoas. Caminhos neurais são configurados por sinais químicos e elétricos que são enviados através do cérebro. Com o tempo, esses caminhos neurais se estabelecem, eles se transformam na norma, mesmo se são ruins para nós porque nos causam estresse e ansiedade. Contudo, se pudermos voltar e alterar nossa relação, reavaliar nossos relacionamentos com pessoas e eventos do passado, os caminhos neurais podem mudar.

E se pudermos manter sentimentos mais positivos sobre o passado, isso se torna o novo modelo. É como reajustar o termostato. Não é ter experiências que nos torna sábios, é refletir sobre as experiências que tivemos que nos faz sábios e que nos ajuda a ser completos, traz sabedoria e autenticidade. Isso ajuda a nos tornar o que poderíamos ter sido. Mulheres começam completas, não começamos? Quero dizer, como meninas, começamos irritadiças – É, quem disse? Temos atuação. Somos os sujeitos de nossas próprias vidas. Mas, muito frequentemente, muitas, se não a maioria de nós, quando alcançamos a puberdade, começamos a nos preocupar com ajustar-nos e sermos populares. E nos tornamos os sujeitos e objetos da vida de outras pessoas. Agora, em nosso terceiro ato, talvez seja possível para nós percorrer de volta o círculo até onde começamos e conhecê-lo pela primeira vez. E se pudermos fazer isso, não será apenas para nós mesmas. Mulheres mais velhas são o maior contingente demográfico do mundo. Se pudermos voltar e redefinir a nós mesmas e nos tornar completas, isso criará uma mudança cultural no mundo e dará um exemplo às gerações mais jovens, para que elas possam repensar suas próprias expectativas de vida.”

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