As leituras de 2005 (parte 2)

Márcia Denser

Continuando com as melhores leituras de 2005, pela ordem numérica:

6 – O escritor Marcelo Mirisola e seu último romance Joana a Contragosto.  Reconhecido pelos outros escritores (por nós) como o grande talento literário pós-90, Mirisola é o que eu chamo de tecnologia de futuro em matéria de Rubem Fonseca, isto é, do que o autor de Lúcia MacCartney e Feliz Ano Novo foi para a prosa urbana dos anos 70.

Enquanto RF ainda é moderno, Mirisola é a realização plena da pós-modernidade da literatura de ficção em 2000, pós-modernidade entendida como aquilo que veio depois do esgotamento da modernidade e que incorpora em sua estética os elementos da cultura de mercado.

O personagem principal de Mirisola, e o ponto alto de sua obra, é a linguagem, um mix genial de obcenidades, sublimidades e puro deboche, sem contar um certo “priaprismo metafísico”, segundo ele mesmo. Nesse Joana a contragosto, acontece uma virada qualitativa porque o narrador se apaixona, se humaniza e, advinhem, fica ainda melhor. Se até Bangalô seu personagem-narrador representava uma espécie de Consciência Perversa, coletiva e degradada, jamais admitida pelo homem comum, em Joana, aparentemente apenas um relato de amores frustrados, ele se torna o porta-voz de nossa Consciência Infeliz.  

7 – O livro Poder e Terrorismo, de Noam Chomsky (Record, 2005), com entrevistas e conferências pós-11 de setembro. Segundo o jornal The Nation, de um lado temos a mídia oficial, a comunidade de analistas de relações internacionais e o governo – e, do outro, Noam Chomsky. Aqui, ele discute a atuação dos Estados Unidos, desafiando Washington a aplicar os mesmos padrões morais que demanda de inimigos na política externa, fazendo revelações espantosas sobre as intervenções militares norte-americanas no Oriente Médio, Afeganistão, Iraque, Vietnã, África do Sul, América do Sul, América Central. Eis algumas:

Como se melhoram as condições de investimento num país do Terceiro Mundo? Uma das melhores maneiras é assassinar organizadores sindicais, líderes camponeses, torturar padres, massacrar lavradores, solapar programas sociais e assim por diante. Isso faz as condições de investimento melhorarem”. (pág.60)

Um dos principais alvos da ‘Guerra do Terrorismo’ movida pelos Estados Unidos (na década de 80) foi a Igreja católica, que havia cometido o grave erro de se voltar para o que chamava de ‘opção preferencial pelos pobres’ e tinha de ser castigada por isso. El Salvador é um exemplo dramático. A década de 80 começou pelo assassinato de um arcebispo e terminou com o assassinato de seis eminentes intelectuais jesuítas. E o exército dos Estados Unidos derrotou a Teologia da Libertação.” (pág.65).

Creio que essas duas citações dispensam comentários.

8 – O livro não é deste ano, mas nunca sua leitura foi tão pertinente. Trata-se de O Jornalismo Canalha – A promíscua relação entre mídia e poder (S. Paulo, Casa Amarela, 2002), de José Arbex Jr, jornalista, editor de Caros Amigos e do jornal Brasil de Fato, além de professor de jornalismo na PUC-SP. É uma poderosa ferramenta para blindar o olhar desprotegido do leitor que desconhece os bastidores da mídia nem tem a menor idéia de como se editam as notícias.

Mas Arbex dá o serviço, desmonta o cirquinho muitíssimo bem engendrado de certas publicações, suas análises de edições de Veja, Época, Folha, etc. são lapidares, pequenas obras primas de desconstrução da desinformação que campeia na imprensa. Segundo ele, ”os próprios jornalistas aceitam fazer o papel de escribas do poder. Muito poderia ser escrito sobre as razões que determinam tal comportamento – do triunfo momentâneo do pensamento liberal, para o qual o mercado é a lei inexorável da existência, ao puro oportunismo de carreiristas que sabem o que devem escrever e falar para “se darem bem“ na profissão. Em geral, eles são eficientes, pois eram de esquerda quando fizeram a universidade, e conhecem bem os argumentos que tocam a sensibilidade da classe média”.

São leituras inquietantes mas que recomendo como a sacerdotisa das cerimônias de iniciação: te levo pela mão até o limiar dos mistérios e retiro a venda dos teus olhos. Para entrar em 2006 com os olhos bem abertos.

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