Às favas o julgamento da história

Responda depressa: você quer viver ou quer que sua morte seja julgada pela história, para que se conheçam os responsáveis por ela?

Para muita gente, principalmente os governantes, parece que interessa pouco a adoção de medidas amargas, porém capazes de minorar os impactos que essa praga vem causando. E vale mais aceitar que desmandos sejam praticados desde que atendam aos reclames de Sua Majestade, o Mercado. Ou às conveniências de conforto da população, porque isso rende votos. Políticos de qualquer coloração ideológica agem muito mais por interesses político-eleitorais e bem menos em respeito aos interesses públicos. Daqui a pouco tempo o eleitor estará na frente da urna elegendo ou reelegendo seus futuros governantes. E nunca antes na história deste país, como diria o Lula, há tantos governantes, entre prefeitos, governadores até o presidente (infectado pela covid-19) aliviando os cuidados para, assim, posar de bonito diante do eleitorado.

No instante em que estamos atingindo o pico do número de infectados e em muitos lugares já faltam caixões para enterrar os mortos, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, determinou a reabertura de bares, restaurantes, parques, salões de beleza e academias. Com isso, elevou perigosamente as chances de contágio. Especialistas garantem que em duas semanas será possível aqui no DF verificar as consequências com a irresponsabilidade de afrouxar o isolamento – até agora a única forma de conter a devastação dessa praga – com o inevitável aumento de infectados e, igualmente, no número de mortos. “Olha que governador bacana, gente! Ele está deixando tudo aberto para que a gente possa se divertir, se aproximar, se tocar, enfim... viver a vida! Ora, se ele mandou relaxar, então...vamos relaxar e aproveitar! Viva a vida! Vem mais pra cá, me dá um abraço apertado! Tim-tim”.

O raciocínio dos que se aproveitam do relaxamento dos cuidados é mais ou menos esse. Com o seguinte complemento: “vou votar na reeleição dele, isso é que é um homem bom!” E que ninguém venha dizer que isso não é verdade.

Os números são claríssimos. O site Inloco registrou uma queda vertiginosa na taxa de isolamento, que estava em 62,2% e desabou para quase a metade. Hoje está em  35,7% no Distrito Federal. E olha que, segundo números da própria Secretaria de Saúde, o DF já está em situação crítica. 82,09% dos leitos dos hospitais públicos destinados ao tratamento das vítimas da covid-19 estão ocupados. Percentual que sobe para perigosos 90,84% nos leitos da rede particular. E em tendência de crescimento, que pode se agravar e sair inteiramente de controle com o relaxamento decretado pelo governo local.

 “Morra quem morrer”

Esse quadro não fica nada a dever ao enorme número de prefeitos irresponsáveis que continuam desafiando as recomendações dos mais respeitados organismos internacionais e de forma puramente eleitoreira vêm expondo seus próprios concidadãos a riscos cada vez maiores de contaminação e óbito. Um deles se tornou emblema de toda a corja que com ele se alinha no pouco caso com a maior pandemia da história recente do planeta. É aquele irresponsável lá de Itabuna, na Bahia, o prefeito Fernando Gomes, o que anunciou a reabertura do comércio “morra quem morrer”. Desde que ele se reeleja, é claro.

> “Morra quem morrer”, diz prefeito ao anunciar reabertura do comércio

A bem da verdade, o crescimento vertiginoso no número de mortos e infectados não pode ser colocado apenas na conta das autoridades nos três níveis. A população como um todo tem grande parcela na (ir)responsabilidade com os cuidados básicos. Mas, tanto no Brasil quanto no mundo, autoridades existem para dar bons exemplos, apontar rumos, indicar comportamentos. Se não o fazem e apenas ficam no discurso, as pessoas se sentem no direito de descumprir todas as recomendações sanitárias. “Ora, se o prefeito mandou reabrir é porque todo mundo pode ir pra rua confraternizar e acabar com esse isolamento dos infernos”. E tome gente se acotovelando  sem máscara, desrespeitando o limite de afastamento, numa promiscuidade que não pode dar em outra coisa a não se no agravamento da situação.

No Palácio do Planalto o quadro é exatamente o mesmo. O capitão que descansa as nádegas naquela cadeira infectada do Palácio do Planalto até agora não se retratou nem irá se retratar “porque palavra de macho que é macho não volta atrás, tá okay?”. Essas aspas aí não são dele, são minhas mesmo. Mas as a seguir são dele, sim. Ele declarou outro dia: “a história vai dizer quem estava certo e a quem cabe a responsabilidade sobre parte das mortes.”

Ou seja: mesmo infectado por essa praga, exatamente por descumprir o preceito mais básico do afastamento social – todo dia aparecia abraçando e beijando apoiadores e membros de seu governo - Bolsonaro até hoje insiste na defesa do uso de um vermífugo como panaceia para o combate à “gripezinha”, relativiza o poder devastador da doença e não consegue transmitir qualquer sinal de compaixão às famílias que perderam até aqui quase 80 mil entes queridos. E quer deixar que a irresponsabilidade dele com esse genocídio recaia no julgamento da história.

A vida é agora                                             

Há situações em que se conhece a dimensão de um chefe de governo. O momento em que vivemos é um deles. O diabo é que não temos nem chefe nem governo. Se contássemos com as duas condições, muito provavelmente teríamos um presidente, mesmo leigo em questões de saúde, copiando as recomendações dos especialistas, respeitando o que a ciência vem demonstrando e, assim, dando o exemplo aos seus governados. Teria de arcar, sim, com todas as consequências, inclusive a de colocar em risco sua reeleição, que no caso dele sequer se justifica, pois até aqui não governou coisa alguma nem disse a que veio.

No clima de “escancarou geral”, de “vamos aproveitar e descontar esse tempo que a gente ficou trancado e tomar todas, se abraçar e se beijar à vontade”, o máximo que aprenderemos com isso tudo é a conjugar “morrer” em todos os tempos verbais – passado, presente e futuro.

E a esperar essa porcaria chamada julgamento da história. Ou então virar a mesa e exigir providências imediatas, porque, pelo que consta, a vida é agora, e não amanhã nem depois de amanhã. (Agora responda aqui, baixinho, antes de a gente se despedir: depois de morto será que importa esse tal de julgamento da história pra saber quem foi o responsável pela sua morte? Ou você prefere continuar vivo? Heim?)

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