Às cinzas

Fábio Flora *

Escrevi na última semana que o Carnaval era a festa do troca-troca, na qual o rei virava plebeu e o plebeu virava rei. Pura etimologia. É só dar uma espiadinha nas sapucaís mais badaladas para ver os nobres de todo santo dia exibindo o esplendor vip que deveria estar nos ombros dos anônimos. De repente, o vírus da rainha de bateria – que nessa época se espalha mais do que qualquer zika – contamina notáveis de toda ordem, de atrizes globais a políticos locais.

Um tal de querer repicar mais que os tamborins.

Nem um dos poucos camarotes geralmente reservados aos coadjuvantes escapou este ano – e a loiríssima and famosa Grazi Massafera foi eleita a Mulata do Gois. Antes que me digam que não importa a cor e, sim, a simpatia, a graça, o talento: quando novelas, séries, jornais, realities, programas de auditório ou humor usarem esses mesmos critérios para selecionar suas “mulatas” – e chegarem perto de representar a diversidade brasileira –, a gente volta a conversar.

Por ora, me deixem distribuir meus estandartes de ouro.

O de fantasia vai para a Branca Maluca. Um luxo a modelo negra ostentando peruca platinada, camisa da Seleção, frigideira em riste e biquinho à moda selfie. Só faltou o PM na escolta para completar a alegoria. Já o troféu de ala mais bem coreografada vai para a do panelaço, da São Clemente. A escola carioca lacrou ao vestir os brincantes de palhaços verde-amarelos – figurino que dispensa explicações. Quem também dispensa explicações (mas nunca um bom pão com mortadela) é o Bloco Soviético, vencedor da categoria melhor conjunto de comunas bolivarianos esquerdopatas feminazis gayzistas sodomitas comedores de criancinha. A massa não só pintou de vermelho e irreverência as ruas de São Paulo, como ainda garantiu o dez em harmonia e revolução.

Outro estandarte merecidíssimo – o de destrinchar enredos de péssimo gosto – vai para a agremiação Unidos do Bom Senso. Diante do pai branco que fantasiou o filho negro e adotivo de macaco (e acabou sendo acusado de racismo), nota máxima para os que enxergaram ali não falta de carinho, mas uma imensa falta de noção. E sublinharam que é preciso estar constantemente vigilante para se evitar qualquer atitude – mesmo involuntária – que reforce estereótipos e remeta a preconceitos seculares.

Um último prêmio dedico à Rede Manchete de televisão, que jamais atravessaria o samba a ponto de não transmitir ao vivo os desfiles de escolas tradicionalíssimas como Estácio de Sá e Vila Isabel. Saudade enorme do canal que não fazia da festa mais popular do país – patrimônio cultural de todos os brasileiros – apenas um adereço de sua programação.

* Cronista residente no Rio de Janeiro, Fábio Flora mantém o blog Pasmatório e perfil no Twitter.

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