Arrumando a casa com Heidegger e Marie Kondo

"Se, como ensinava o filósofo alemão Martin Heidegger, o sentimento do tédio pode servir como ponto de partida para a indagação metafísica, o programa de Marie Kondo é um verdadeiro convite ao filosofar"

Depois da ácida coluna de João Pereira Coutinho publicada dia desses na Folha, não resisti a dar uma olhada na nova série da NetflixOrdem na casa com Marie Kondo. Normalmente, fujo desses programas de transformação, mas confesso que assisto de vez em quando ao Esquadrão da Moda no SBT só para ficar juntinho de minha companheira em um sábado à noite à toa de pipoca e edredom.

Se, como ensinava o filósofo alemão Martin Heidegger, o sentimento do tédio pode servir como ponto de partida para a indagação metafísica, o programa de Marie Kondo é um verdadeiro convite ao filosofar. Afinal, o que mais podemos fazer diante do absoluto desinteresse provocado pelo “drama” do casal perdido na gestão das tarefas básicas do lar como lavar a roupa, arrumar a cozinha e manter os armários organizados? Com certeza, não é prestar atenção aos sábios conselhos da guru da arrumação e sua técnica infalível de dobrar camisetas e calças... Filosofemos, pois!

Me chamou a atenção no episódio o modo como Marie pede ao casal “neuras” que faça uma pausa para agradecer à casa por protegê-los, além de “pedir licença” antes de começar a arrumação. Em outra cena, a sorridente japonesa ensina aos americanos consumistas a se despedirem das roupas que serão descartadas. Assim, eles são obrigados a dizer ao menos um thank you antes de se livrarem da peça indesejada.

Uma relação de poder

Tais gestos aparentemente banais nos dão muito em que pensar sobre a relação do ser humano com as coisas. Heidegger, em seu famoso texto A época da imagem do mundo, nos chama a atenção para o modo como, durante a modernidade, transformamos tudo o que está à nossa volta em objetos. Tal relação - mediada pela transformação do mundo em imagens que se apresentam a nós, sujeitos - fez com que todos os entes (ou seja, as coisas que são, que existem) se subordinem ao homem, tornando-se assim passíveis de serem consumidos, dominados ou eliminados.

É como se tudo que há no mundo existisse unicamente para o nosso usufruto, tal como as roupas acumuladas no armário e as quinquilharias esquecidas na garagem existem apenas para serem utilizadas (ou descartadas) pelo casal americano da série.

Dignidade

Nos seus gestos de agradecimento à casa e às coisas, Kondo parece dar aos objetos cotidianos uma dignidade ontológica que nos aponta para um outro tipo de relação com os entes. Não é ainda aquela que Heidegger enxergava no mundo grego antigo – na qual homens e coisas se percebiam mutuamente como entes marcados pela ambiguidade e conscientes dos mistérios da existência.

Mas é pelo menos uma na qual nos tornemos capazes de reconhecer a importância daquilo que está à nossa volta, do papel que um dia desempenharam em nossas vidas, de sua existência mesma em um mundo cada vez mais virtualizado e intangível. Ao fazermos isso, estamos abrindo espaço para questionarmos nossa posição de “senhores” do mundo – um movimento imprescindível na busca urgente por uma relação menos predatória com o planeta.

E, antes que eu me esqueça:

– Obrigado, Marie, por inspirar o tema dessa coluna.

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