Aracy de Carvalho, heroína do Brasil

Janete Capiberibe *


Nas últimas três décadas o Brasil vem resgatando algumas heroínas que estavam relegadas ao esquecimento. A primeira delas foi Olga Benário, cuja biografia escrita por Fernando Morais trouxe à tona a dirigente comunista alemã casada com Luís Carlos Prestes. Presa pela polícia política de Filinto Müller em 1936, ela foi deportada pelo governo brasileiro, grávida, para a Alemanha nazista, onde morreu em 1942 no campo de extermínio de Bemberg. Depois seria a vez de Iara Iavelberg, guerrilheira e companheira de Carlos Lamarca, morta pela repressão em 1971 no sertão da Bahia. E, anos atrás, começou a ser resgatado o papel de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, mulher do escritor Guimarães Rosa. Ela arriscou a pele ajudando na emissão de vistos para judeus na Alemanha de 1940, salvado dezenas deles do extermínio. Aracy morreu em março de 2011 em São Paulo, pouco depois de completar 102 anos.

Assim como a jornalista Martha Gellhorn, casada com o escritor Ernest Hemingway, Aracy não seria um pé de página na biografia do marido famoso. Nascida em Rio Negro (PR), filha de pai brasileiro e mãe alemã, Aracy Moebius foi desde cedo uma mulher à frente de seu tempo. Numa época em que o preconceito contra a mulher era muito mais forte do que hoje, ela se separou do primeiro marido em 1934 e foi morar na Alemanha com o filho. Fluente em alemão, inglês e francês, conseguiu emprego no consulado brasileiro em Hamburgo. Chocada com a perseguição aos judeus promovida pelo nazismo depois da “Noite dos Cristais” (1938), Aracy ignorou a Circular Secreta nº 1.127, que proibia a entrada de “hebreus” no Brasil. Com discrição, colocava vistos de judeus sem o infame “J” no passaporte entre os papéis a serem assinados pelo cônsul-geral.

Ela também transportava clandestinamente judeus no carro da embaixada, chegando inclusive a bater boca com oficiais da temida Gestapo. Nomeado cônsul-geral em Hamburgo em 1938, o escritor João Guimarães Rosa teve pleno conhecimento da transgressão de Aracy e lhe deu total apoio. Eles se casariam em 1940 e viveriam sob os bombardeios que a Royal Air Force (RAF) despejou na cidade naquele ano. Em 1942, quando o Brasil rompeu relações diplomáticas com a Alemanha, Guimarães Rosa e Aracy foram confinados até serem trocados por diplomatas alemães no Brasil.

Em reconhecimento à sua ação, em 1983 o nome de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa foi incluído entre as quase 22 mil pessoas homenageadas no Jardim dos Justos, no Yad Vashem (Museu do Holocausto), em Jerusalém. É um tributo que Israel presta aos não-judeus que ajudaram os judeus a escapar do holocausto. Apenas outro brasileiro recebeu honraria semelhante, o diplomata Luiz de Souza Dantas, que emitiu, na França, vistos para que judeus pudessem emigrar para o Brasil entre 1940 e 1942.

A solidariedade do casal Guimarães Rosa não se limitou à época do nazismo. Em 1964, eles deram refúgio no Rio de Janeiro ao escritor Franklin de Oliveira, perseguido pelos militares que tinham derrubado João Goulart. E, em 1968, em pleno terror do AI-5, Aracy (o escritor morrera um ano antes) deu guarida ao cantor e compositor Geraldo Vandré.

Discreta, ela jamais fez publicidade de seus atos, que ficaram desconhecidos por muito tempo. Mas já está mais do que na hora de “Ara” – como era chamada por Guimarães Rosa – ser reconhecida no Brasil. Por esse motivo, apresentei à Câmara dos Deputados um projeto de lei inscrevendo no “Livro dos Heróis da Pátria” o nome de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa. O “anjo de Hamburgo” deve ser (re) conhecido no Brasil.


* Janete Capiberibe é deputada federal (PSB-AP).

 

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