A tuitada de Weiwei e outras histórias sobre a China

Na abertura das Olimpíadas de 2008, em Pequim, olhos do mundo todo  admiraram a beleza, a modernidade e a imponência do estádio Ninho do Pássaro, que se tornou símbolo dos jogos e reflexo do progresso e do poderio econômico chinês. Há mais de duas décadas, o país cresce, em média, 10% ao ano e, em 2010, tornou-se a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Admirável, não? Pena que esse crescimento não venha acompanhado de respeito aos direitos e garantias individuais, entre eles a liberdade de opinião e de expressão (sobretudo quando divergente).

O tal Ninho do Pássaro que tanto orgulho deu à China teve como idealizador o artista plástico dissidente Ai Weiwei. Após ficar cerca de 80 dias detido pelo governo chinês devido a suas opiniões contrárias ao regime, Weiwei foi libertado em junho sob a condição de não dar entrevistas à imprensa, nem manifestar-se pelas redes sociais. Mas na semana passada, após visitar e ver as condições de colegas ainda presos (alguns dos quais, segundo ele, sofreram torturas), o ativista desafiou a proibição e usou o Twitter para protestar contra a repressão do governo chinês aos opositores. Mais uma vez, virou notícia no mundo inteiro.

Li várias matérias sobre a tuitada de Weiwei e foi impossível não pensar em três ótimos livros sobre a China, que tratam das condições de vida dos chineses em uma sociedade de riquíssima história e tradição, mas totalitária e aparentemente pouco preocupada com o bem-estar do povo. Sobretudo das mulheres, principalmente após a política do filho único, que faz com que várias famílias da área rural matem suas filhas recém-nascidas para terem a oportunidade de ter um filho homem, considerado mais útil no trabalho do campo.

A difícil condição feminina na China é mostrada com maestria em As boas mulheres da China, da jornalista Xue Xinran. De 1989 a 1997, Xinran apresentou, em Nanquim, o programa de rádio Palavras na brisa noturna, no qual ouvia mulheres chinesas relatarem sua realidade de violência familiar, opressão, medo, preconceito, humilhação e abandono. O livro traz quinze dessas histórias, todas duras, tristes, tocantes: é a menina vendida em casamento que passa o dia inteiro acorrentada, com a conivência dos vizinhos e das autoridades, ou a garota, continuamente estuprada pelo pai, que arruína a própria saúde para internar-se no hospital e não mais ter de voltar para casa, ou a mulher que se tornou catatônica após assistir à tortura da irmã, acusada de ser contrária ao regime. Após terminar o livro, a sensação é de coração apertado e de uma revolta enorme que demora dias a passar. Pelo menos comigo.

Cisnes Selvagens, de Jung Chang, é outro livro que inevitavelmente desperta revolta e incredulidade no leitor. Ao contar a história de três gerações de mulheres (a própria autora, a mãe e a avó), Chang traça um rico panorama histórico da China do século XX, começando em 1924 (quando várias regiões do país eram dominadas por bandidos ou chefes políticos corruptos e as mulheres eram obrigadas a quebrar e amarrar as articulações dos pés para que eles fossem “pequenos e graciosos”), passando pela Revolução Chinesa e chegando até o final da era Mao Tsé Tung, em meados da década de 70.

Chang, que foi integrante da Guarda Vermelha enquanto o pai era humilhado e levado à loucura pelo regime, faz um crítica ácida e contundente à ditadura de Mao, não apenas pela fortíssima intimidação e repressão aos opositores, mas também pelo total descaso com o povo, como quando a maior parte dos camponeses foi obrigada a abandonar as lavouras para produzir aço e lenha, fazendo com que cerca de 30 milhões de chineses morressem de fome desnecessariamente. Já li o livro várias vezes e sempre termino com a sensação de quem levou um soco no estômago.

Meu livro preferido sobre a China é A boa terra, escrito pela norte-americana Pearl S. Buck (vencedora do Nobel de Literatura em 1938), que passou a infância, a adolescência e parte da vida adulta no país. O livro mostra cinquenta anos de história de uma família camponesa pré-revolução, que enfrenta as mais diversas privações e dificuldades para construir (e reconstruir) a vida, até conseguir riqueza (que traz mais problemas e desarmonia do que felicidade). É uma linda história, que se tornou um clássico e rendeu à autora o Prêmio Pulitzer de 1932.

Epílogo

Tanto As boas mulheres da China quanto Cisnes Selvagens só puderam ser escritos porque suas autoras emigraram para o Reino Unido, onde vivem atualmente.

Chang também é autora, em parceria com o marido John Halliday, da biografia Mao – a história desconhecida, que aborda da infância à morte do ex-ditador. O livro é um verdadeiro massacre à imagem de Mao, retratado como um homem sem preocupações éticas, morais ou ideológicas, determinado a conquistar e manter o poder a qualquer custo. Muito diferente da imagem heroica endeusada até hoje por muitos chineses.

Livros citados

As boas mulheres da China, de Xinran (2003)
Companhia das Letras

Cisnes selvagens, de Jung Chang (1994)
Companhia das Letras

A boa terra, de Pearl S. Buck (1931)
Editora Alfaguara

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!