A seleção aprendeu o hino, mas esqueceu o futebol

João José Forni *

Todo o brasileiro se acha um técnico de futebol. Jornalistas, que nunca chutaram uma bola na vida, nessa hora também se transformam em especialistas. Em época de Copa, então, proliferam. Não faltarão, portanto, inúmeras análises esportivas, sociológicas e até políticas para explicar o fracasso da seleção. Do abalo, pela contusão de Neymar, até o descontrole emocional, que apareceu com toda a crueza no jogo contra o Chile e nessa derrota.

A aula de futebol da seleção alemã foi apenas a ponta do iceberg. Os alemães nem estavam com toda essa bola, para entrar em campo e dar um passeio no Brasil em apenas 30 minutos. Na Copa, tiveram problemas em jogos com times muito piores do que o nosso, pelo menos nas aparências, como Gana e Argélia, por exemplo. O resultado do jogo contra a Alemanha foi apenas o desfecho de uma crise anunciada.

Se não, vejamos. Os jogadores brasileiros são badalados demais pela mídia, pelos patrocinadores, pela CBF e até pela torcida. Como se de fato representassem o país, como guerreiros, cavaleiros templários em defesa do manto sagrado. Bullshit, como dizem os americanos. A maioria não está nem aí, diferentemente do que acontecia em passado não muito distante. Pelo menos até 1970, em que a maioria deles jogava em clubes nacionais.

O que se vê agora é um ajuntamento de craques, regiamente pagos, que usam a seleção para se projetar internacionalmente e aumentar o seu cacife na bolsa do futebol. Vestem a camisa, mas muitos estão mais interessados em faturar gordos contratos publicitários. Sem escrúpulo de anunciar bebidas alcoólicas, linguiça, telefone, chinelos. O que vier, eles traçam. Em vez de treinarem, preferem arrumar o cabelo.

A CBF deveria proibir, por exemplo, treinador e jogadores de fazer propaganda de bebida alcoólica. Prestaria um excelente serviço ao país, principalmente aos jovens que confundem modernidade, com andar pelas ruas ou dirigir com uma latinha de cerveja na mão. A Copa acabou virando uma mina de dinheiro, principalmente com verba publicitária de anúncios de cerveja e outras quinquilharias. Faturam empresários, mídia e jogadores. O contrato publicitário passou a ser mais importante do que o jogo.

Essa necessidade da exposição não poupou nem a contusão de Neymar. Chegou-se ao ponto de  médico e fisioterapeuta, provavelmente estimulados por familiares do jogador, e pela vontade do próprio, vazarem para a imprensa que Neymar, em função da melhora, poderia jogar a final, no próximo domingo. O tratamento incluiria aplicar infiltração na contusão da coluna do jogador, quando se sabe que essa prática está ultrapassada.

Atente-se que já se falava em decisão, antes do jogo com a Alemanha. O Brasil já estava escalado para a final. O médico da seleção, em entrevista, rapidamente descartou qualquer hipótese de Neymar voltar a jogar na Copa e desqualificou qualquer informação ou tentativa vinda de pessoas não autorizadas a liberar o atleta. Ainda bem, porque seria uma alucinação. Mas essa pressão pela volta não significava nenhum ato de patriotismo em defesa dos brios nacionais. Por trás dessa pressão, também existem contratos milionários, que seriam prejudicados pela ausência do jogador. Cifrões estavam em jogo.

A badalação em torno da seleção acabou contaminando o próprio ambiente, até porque hoje, por mais que jogadores se isolem, não há como ficar imune às redes sociais. Eles se acham personagens idolatradas. A mídia também é culpada, porque incensa demais atletas e comissão técnica, na falta de assuntos mais sérios para publicar e discutir. Chega ao disparate de cobrir e mostrar a caminhada matinal do técnico da seleção e qualquer bobagem que os atletas dizem. Aquelas entrevistas ensaiadas, obrigatórias pelos contratos de patrocínio, com salada de logomarcas nas costas do entrevistado, sem esquecer da garrafinha de água e isotônico ao lado do microfone, são de dar dó. Muito pouco se aproveita. Até porque ninguém quer abrir o jogo.

A Alemanha chegou de forma discreta ao Brasil. Escondeu-se num balneário da Bahia, e lá preparou a estratégia para subir na Copa. Ela tinha foco, como agora virou moda dizer. Veio com um objetivo, jogar e ganhar. Chegar à final. Arrasou na primeira partida em cima de um Portugal, um time que se arrastou na primeira fase, e teve competência para passar pelos demais adversários.

Simpática, o máximo que se permitiu foram algumas aparições nas praias da Bahia, para algumas fotos. Teve uma única folga em todo o período. O Brasil teve várias. É um time experiente, joga junto há mais de seis anos, e não chora nem na hora do hino e tampouco na hora dos pênaltis. Ela ganhou quatro decisões por pênaltis nos últimos anos. Com frieza, disse que não fazia diferença jogar contra o Brasil.

Não foi apenas a saída de Neymar que descontrolou a seleção. Muito provavelmente perderíamos, até mesmo com Neymar em campo. A mídia ajudou a enterrar a seleção na medida em que pouco comentava suas evidentes fraquezas e ressaltava as poucas virtudes. Até mesmo o pênalti inventado pelo juiz em Fred, no primeiro jogo, ajudou a esconder os defeitos do time. E Felipão foi entrando na onda, insistindo em jogadores que pouco rendiam.

O Brasil, na primeira fase e oitavas, enfrentou apenas dois times fortes: México e Chile. E não ganhou. Nesses jogos, apesar da euforia e da badalação de certos canais de TV, a seleção não conseguiu esconder sua fragilidade. A classificação veio aos trancos e barrancos. Mas a mídia, que também fatura milhões com cada vitória da seleção, incensava um time cheio de defeitos e com um centroavante contestado por 9 entre 10 brasileiros. Resultado: o Mineiraço, que rima com fracasso ou fiasco envergonhou o futebol brasileiro, com a maior derrota da história e uma das maiores já ocorridas numa Copa do Mundo. Nenhum anfitrião de Copa do Mundo teve uma derrota tão acachapante em 84 anos do certame.

Se algum comentarista, político ou jornalista criticasse alguma coisa, recebia uma saraivada de ataques pelas redes sociais, e ainda era taxado de oposição, ave agourenta. Os poucos que se atreveram a mostrar as fragilidades do time brasileiro acabaram sendo calados pela euforia das lágrimas e do “hino à capela”, outra bobagem que ajudou a esconder os defeitos. Campeonato, Copa do Mundo se ganha com futebol bem jogado, treino e trabalho, como fez a Alemanha, a Holanda; com o coletivo, a entrega, e não apenas com hino e lágrimas.

A crise da seleção brasileira, como todas as crises, acaba sendo uma oportunidade de rever práticas, cartolas da CBF e técnico ultrapassados, como se bastasse jogar com a camisa amarela para os outros times se assustarem. Desde o jogo contra Camarões, o Brasil vinha mostrando fragilidades evidentes para quem entende o mínimo de futebol. Juiz, complôs da Fifa, violência dos adversários, caça a Neymar e outras desculpas serviam para enublar os defeitos da seleção.

A contusão do Neymar virou crise de estado. A presidente Dilma mobilizou ministros, no dia da contusão do jogador, para saber notícias sobre o estado do atleta, porque todas as esperanças do título – que o governo queria faturar – eram depositadas nos pés do jovem atacante, segundo relata reportagem do jornal Valor Econômico.

Quando chegou a hora da verdade, com ou sem Neymar, escancarou-se aquilo que muitos se negavam a ver. A seleção era um amontoado de craques regiamente pagos, mas não tinha conjunto. Os gols brasileiros, até então, haviam resultado de brilhos individuais, sendo quase a metade dos dez gols na Copa, vindos dos pés de um único atleta.

Faltou à seleção, nos momentos cruciais, aquilo que se recomenda na gestão de crises: um líder que assuma o comando e chame o time para se recompor. O grupo, muito bom no batuque, na dancinha das comemorações, não tinha um líder experiente dentro de campo, tarefa que a mídia tentava jogar para cima do excelente jogador, mas emocionalmente instável, Thiago Silva.

Fora do campo, Felipão era apregoado como aquele cara que tinha o grupo na mão. Que sabia como motivar uma equipe. Na hora crucial, no jogo decisivo, em que o Brasil levou o primeiro gol e dez minutos depois mais quatro, foi quando ficou mais evidente a falta de um líder em campo e o dedo do treinador que vira o jogo. No banco, Felipão parecia tão atônito quanto George Bush, quando recebeu a notícia dos ataques ao World Trade Center, em setembro de 2001.

Nos próximos dias, haverá muitas análises e interpretações do porquê desse fracasso. A Alemanha mostrou que oba-oba não ganha Copa. Trabalho, conjunto, seriedade, treino, muito treino, concentração ganham jogos. Batuque,  choradeira,  mídia e comerciais acabam deslumbrando em certos momentos. Forram os cofres de agências de publicidade e intermediários. Criam até um clima de euforia. Mas não entram em campo na hora do “vamos ver”.

* João José Forni, é formado em Letras e Jornalismo. É Mestre em Comunicação, pela Universidade de Brasília. E tem o curso MBA em Gestão Estratégica, pela Universidade de São Paulo (USP)

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