A proibição da venda de carros zero km nos EUA

A ideia de proibir a venda de automóveis zero km pode parecer, à maioria, uma maluquice total. No entanto, isso aconteceu nos EUA: entre fevereiro de 1942 e final de 1944, foi proibida a venda de carros zero km naquele país. Quando da proibição, a produção anual norte-americana era de cerca de três milhões de unidades anuais, quase o mesmo tanto que o Brasil produz, hoje.

O motivo da medida “radical” foi a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial. Ante o novo desafio, surgiu a necessidade de se liberar capacidade produtiva – máquinas, materiais e pessoas – para ampliar a produção destinada ao esforço de guerra. Embora surpreendida pela medida, até mesmo a indústria automobilística a apoiou.

A importância de se relembrar o fato, que acabou de completar setenta anos, decorre da necessidade de se buscar alternativas para o enorme desafio atual: enfrentar as graves e persistentes crises em que vivemos: ambiental, social e econômica. Essa posição não é só minha: Lester Brown, conhecido economista, presidente do conceituado Earth Policy Institute, defende que o combate aos atuais problemas socioambientais exige uma mobilização semelhante àquela efetuada para se enfrentar os desafios da Segunda Grande Guerra.

Atualmente, as atenções estão voltadas, principalmente, para a crise econômica. O problema é que não se pode mais pensar em solucionar a questão econômica sem enfrentar, simultaneamente, os problemas sociais e ambientais. Aliás, há evidências de que as soluções “econômicas” podem agravar as demais.

Por exemplo, desde a crise financeira de 2008 os governos injetaram muitos trilhões de dólares nos bancos, para evitar que eles quebrassem. Pois bem, análise recente mostra que diversos daqueles mesmos bancos ampliaram, e substancialmente, seus investimentos na extração e queima de carvão, desta forma contribuindo para agravar a questão das mudanças climáticas.

Outro ponto fundamental: necessitamos, com urgência, repensar a opção atual, no Brasil, na China e em muitos outros países, de festejar o aumento da produção de automóveis como meio para expandir o PIB. Primeiro, porque já não faz mais sentido pensar que expandir o PIB é sinal de melhoria na qualidade de vida; segundo, porque não há mais possibilidade de se compactuar com a enganosa ideia de que a mobilidade das pessoas será ampliada com o aumento da quantidade de carros em circulação. Claro, o desafio é ainda maior em razão de a realidade ir de encontro ao sonho do carro próprio, como muitos carros vão de encontro a outros, com consequências conhecidas e trágicas! Ou, diante de tantas carências em educação, saúde e segurança pública, será que alguém ainda acredita que será possível construir a infraestrutura necessária para acomodar tantos veículos? Já não está claro que insistir nesse caminho é agravar o problema?

Há evidências, porém, de que já se caminha na direção da construção de uma nova economia, mais verde, ou com menor intensidade de carbono. Para mencionar apenas dois exemplos: entre as maiores empresas mundiais, o número daquelas que vê a mitigação das mudanças climáticas como oportunidade supera, em boa margem, aquelas que nela percebem riscos; vale dizer, a parcela mais avançada do setor empresarial já percebe que novos caminhos são necessários, e mesmo inevitáveis; ao contrário de muitos governos, que ainda pensam que “proteger o meio ambiente compromete o crescimento do PIB”... Outro exemplo: a Dinamarca anunciou planos de se tornar completamente independente de combustíveis fósseis em 2050, e pretende que a Europa assuma idêntico compromisso (vale indagar: e o nosso pré-sal, como ficará?!?!).

Nesse aniversário de setenta anos da proibição da venda de automóveis zero km, o que se deve celebrar, evidentemente, não é a guerra, mas sim a evidência da extraordinária capacidade de transformação da sociedade, economia inclusive, para se adaptar a uma nova realidade, e com rapidez.

Frente ao perigo, havendo uma decisão política bem fundamentada e com apoio popular, a capacidade de transformação da estrutura produtiva se mostrou surpreendente.

Isso dá fundamento à esperança de que podemos alterar, com a rapidez necessária, a rota que nossas sociedades estão trilhando. Sem cair no sebastianismo, isso é, aquela crença de que um rei bondoso virá nos salvar, será necessário nos mobilizarmos para transformar os agentes políticos em estadistas que reconheçam o perigo que temos pela frente, e que tenham habilidade para liderar a mudança!

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