A popularidade de Bolsonaro e a boca de jacaré

O mês de janeiro costuma ser apropriado para retrospectivas. Já que o presidente Bolsonaro está começando agora a segunda metade do seu mandato, que balanço podemos fazer dos seus índices de popularidade nos dois primeiros anos de governo?

Na análise de conjuntura política, esta é uma das questões para a qual não faltam bons indicadores quantitativos. De fato, a avaliação dos governos é um dos motivos da existência das pesquisas de opinião pública.

Os dados apresentados a seguir foram extraídos das 53 pesquisas do eleitorado brasileiro feitas ao longo de 2019 e 2020 por quatro institutos diferentes (Ibope, Datafolha, MDA e Ipespe).

O termômetro da popularidade de Bolsonaro que utilizarei é a clássica pergunta sobre a avaliação que a população faz do governo: positiva, regular ou negativa. Para facilitar a visualização das tendências, utilizarei os valores médios das taxas de popularidade.

Assim, por exemplo, nas 26 pesquisas realizadas em 2019, a média de avaliação positiva do governo Bolsonaro foi de 34,5%. Já nas 27 pesquisas realizados ao longo de 2020, esta proporção foi de 33,2%. Por sua vez, as taxas médias de avaliação negativa foram, respectivamente, de 30,8% e de 38,7%.

Assim, a aprovação ao governo teria ficado relativamente estável, enquanto que a rejeição aumentou significativamente. Verdadeiro, mas incompleto. Médias anuais podem esconder mais do que revelar. Os números acima nada dizem, por exemplo, sobre a dinâmica da popularidade do presidente ao longo do tempo.

Como veremos, a dinâmica temporal é algo politicamente muito relevante neste caso. Portanto, apresentarei os números das pesquisas sob a forma de médias trimestrais, que são menos voláteis do que as 53 sondagens tomadas individualmente.

O gráfico abaixo mostra os índices médios de popularidade do governo Bolsonaro ao longo de oito trimestres (o equivalente a dois anos). Cada média trimestral leva em conta pelo menos cinco pesquisas diferentes, realizadas por no mínimo dois institutos distintos.

Podemos claramente dividir a dinâmica temporal da popularidade de Bolsonaro em alguns momentos bem definidos. O primeiro deles é a “lua de mel” observada no primeiro trimestre de 2019: um presidente recém empossado e com uma taxa de avaliação positiva correspondente ao dobro da avaliação negativa.

O segundo momento corresponde aos quatro trimestres seguintes, quando as taxas de aprovação e de rejeição do governo ficam dentro das margens de um empate estatístico. O presidente perde popularidade ao mesmo tempo em que vê crescer a oposição ao seu governo.

O terceiro momento da dinâmica temporal, no segundo trimestre de 2020, está nitidamente associado ao comportamento negacionista de Bolsonaro frente à chegada da pandemia do coronavírus e das medidas restritivas a ela associadas. A avaliação negativa do governo bateu todos os recordes, enquanto a positiva também atingiu o seu ponto mais baixo.

Nos dois últimos trimestres, entretanto, já se pode observar um quarto momento da dinâmica temporal da popularidade do governo, com a queda contínua da desaprovação e o aumento contínuo da aprovação ao presidente. Na prática, os dois indicadores voltaram ao patamar do empate estatístico. A disseminação do auxílio emergencial e o progressivo relaxamento das medidas de contenção sanitária provavelmente estão por detrás desses números.

Curiosamente, a fotografia recente dos indicadores de avaliação do governo Bolsonaro faz lembrar uma boca de jacaré. E evoca uma recente ironia negacionista do presidente sobre o que poderia acontecer com as pessoas que tomarão uma das novas vacinas contra o coronavírus. O que pode acontecer com essa boca de jacaré no trimestre que está começando?

Sabemos que já chegaram ao fim os pagamentos do auxílio emergencial. Sabemos também que janeiro e fevereiro podem trazer notícias bem negativas sobre o número de novos óbitos e infectados. Por outro lado, o trimestre também deve marcar o início da vacinação no Brasil, pelo menos para os principais grupos de risco.

O cenário mais provável é que, neste primeiro trimestre de 2021, as médias dos indicadores de popularidade do governo Bolsonaro continuem dentro das margens de um empate técnico. Colocando numa balança os fatores mencionados no parágrafo anterior, os cenários observados no início do governo ou no auge da pandemia muito dificilmente se repetirão agora.

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