A política perdeu – Manipulação e alienação no processo eleitoral

Era raro uma campanha eleitoral em que não me perguntassem: quando o senhor entrou na política?

Sempre respondi: entrei na política no dia em que nasci. Em seguida, emendava: “Eu não sabia, mas quando completei um ano de idade e não tinha morrido, o prefeito contou que a mortalidade infantil do município tinha diminuído, ou não tinha aumentado. Se diminuía, mesmo que ele não tivesse feito nada, contava vantagem”.

“Portanto, quando nascemos, mesmo sem saber, entramos na política e entramos como um objeto político. Só passei a ser um sujeito quando ganhei consciência da política e de sua importância na vida de uma pessoa.”

Durante a campanha eleitoral de primeiro turno, que há pouco terminou, mesmo acompanhando à distância, observei que muitos candidatos e candidatas, apesar de concorrer a um cargo político, negavam os partidos e a política.

Sábado, véspera da eleição, numa rua aqui de Curitiba, uns imbecis, idiotas ou ignorantes, não sei em qual classificação colocá-los, chegaram entregando panfletos e dizendo: “Não é político”.

Será que o cidadão ou a cidadã não sabe que o simples ato de distribuir um (papel) panfleto, seja ele do que for, de publicidade de uma loja, igreja, ONG, etc, é um ato político? Se não sabe, encaixa-se perfeitamente em um dos adjetivos acima, ou é no mínimo um objeto político de algum órgão, entidade, partido, instituição ou empresa.

Há muita confusão entre vitória ou derrota política com vitória ou derrota eleitoral. Nas eleições do último dia 2 de outubro, pode-se dizer com todas as letras que o grande derrotado eleitoral foi o PT. No entanto, é difícil, pela babel de letrinhas partidárias, dizer qual é o partido vitorioso, até porque parte dos eleitos pertencia, até meses anteriores, a um partido diferente daquele pelo qual concorreu. E daqui a um ano alguns talvez nem estejam mais no mesmo partido.

No Brasil, a maioria dos partidos é instrumento para os seus dirigentes negociarem favores, na maioria das vezes, pessoais. Para a maioria da população, nada significam.

Dessas eleições, pela história dos partidos e pela conjuntura que vivemos, dá para tirar outra certeza: o PT sofreu também uma grande derrota política, mas não foi só ele. A maior derrotada foi a política.

Não vou mostrar em números, até porque qualquer um pode conferir no site do TSE, mas registro: o número de abstenções, brancos e nulos no município de São Paulo superou a votação de João Doria, prefeito eleito no primeiro turno. É a evidencia da derrota da política.

Outras evidências: em todo o país, os votos brancos e nulos aumentaram 23% em relação ao primeiro turno de 2012; e, além de São Paulo, em outras oito capitais o número de votos brancos, nulos e de eleitores que não compareceram foi maior do que do candidato que ficou em primeiro lugar.

De uma maneira geral, a grande imprensa trabalha e manipula os números. Coloca gráficos de número de vereadores e vereadoras, prefeitas e prefeitos eleitos por esse ou aquele partido. Compara com eleições anteriores e faz uma grande festa: o PT foi o grande derrotado.

Faz tudo isso, mas não busca interpretar a política e o papel que cumpriram e onde se pode chegar. Preferem construir e, posteriormente, manipular o objeto a construir o sujeito político.

A derrota da política nessas eleições é o resultado do que a mídia, principalmente a Rede Globo, construiu. Tendo a Operação Lava Jato, principalmente Sérgio Moro, como instrumento e operador, a mídia fez da maioria das pessoas um objeto político.

A conclusão é que essa derrota da política é fruto da estratégia dos que construíram o golpe. Os golpes de Estado se constroem e se concretizam pela força bruta da repressão, ou pela imbecilização do povo.

Assim como a Itália após a Operação Mãos Limpas, o Brasil caminha em busca do seu Berlusconi, fascista e aventureiro, corrupto e destruidor da República, tudo isso com o aval do poder Judiciário e a bênção da mídia.

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