A Peste (já estava) está entre nós. O que fazer?

Que o absurdo fez morada por essas bandas, acho que ninguém mais duvida. Melhor então pedir ajuda para os profissionais: apelo logo para Albert Camus, o filósofo argelino que mais se dedicou a pensar o tema do absurdo. Aproveito a quarentena para ler A Peste, obra na qual ele imagina a cidade de Orã acometida por um surto de peste bubônica na década de 1940. Isolado, o local conta as vítimas na casa das centenas ao dia, enquanto lida com as questões práticas, tais como: isolamento dos doentes, hospitais de campanha, enterro dos mortos. Reconheceu o cenário? Não é à toa, o livro virou um best-seller recente em toda a Europa, de acordo com o site da BBC Brasil.

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Publicado em 1947, A Peste traduz a experiência de Camus na França ocupada pelos nazistas durante a II Guerra Mundial e sua atuação na Resistência. Ele deixa claro na epígrafe do livro ─ “é tão válido representar um modo de aprisionamento por outro (...)”─ o caráter alegórico da doença. Uma das riquezas do livro é poder lê-lo sob os dois registros: tanto político quanto sanitário, o que o torna ainda mais fascinante para nós, brasileiros.

Afinal, qual é mesmo o mal que nos aflige? O de hoje, que mata indiscriminadamente centenas por dia; ou aquele que ascendeu ao poder recentemente prometendo mirar na cabecinha, liberando armamento para milicianos e lutando pelo excludente de ilicitude? O que devemos combater primeiro? A disseminação do vírus ou o das fake news gestadas nos gabinetes presidenciais? O que mais devemos temer economicamente? O desemprego e a quebra de empresas provocados pelo necessário isolamento social ou a depressão econômica que virá necessariamente se mantida a ilusão liberal delirante de que os investimentos privados (quais?) virão milagrosamente nos salvar?
Perdigotos da varanda

Há um personagem secundário no romance de Camus que me intrigou: é um velhinho que todos os dias vai à varanda e joga pedacinhos de papel para chamar a atenção dos gatos de rua que vivem por ali. Quando esses se aproximam, ele tenta acertá-los com um escarro, e ri, satisfeito, quando os atinge. Corta para Brasília: o cercadinho do Palácio do Alvorada é a varanda do Bolsonaro da qual ele dispara seus perdigotos diários aos mais variados alvos pelo puro prazer de agredir. No livro, essa é só uma passagem sem maiores consequências para a narrativa: pudéramos dizer o mesmo sobre o freak show do Alvorada e do comportamento sociopata de seu ocupante.

A leitura d’A Peste não é nada reconfortante, mas pedagógica. Camus nos faz enxergar que esses períodos de calamidade exigem de nós um verdadeiro senso de responsabilidade e de coletividade. Sem nunca resvalar na pieguice, ele nos mostra a importância do trabalho dos profissionais que se dedicam a seus afazeres, com compromisso ético, mesmo nas situações mais adversas.

É o caso dos médicos em tempos de pandemia ou dos professores em tempos de intolerância política, como escreve ele nesta passagem marcante: “Mas chega sempre uma hora na história em que aquele que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte. O professor sabe muito bem disso. E a questão não é saber qual é a recompensa ou o castigo que espera esse raciocínio. A questão é saber se dois e dois são ou não quatro.”

Salvação pelo Humanismo

Em meio a tragédia, os personagens principais se unem para organizar o atendimento aos doentes. Dali, nascem amizades e experiências marcantes: desesperadoras como a de acompanhar a morte de uma criança ou regeneradoras como a de compartilhar um banho de mar após meses de confinamento.

Aflora e consolida-se a consciência de que “amar ou morrer juntos, não há outro recurso”, ou seja, de que nessas horas é preciso agir e pensar coletivamente. Por fim, Camus nos mostra que o altruísmo de seus personagens é movido por um verdadeiro humanismo ─ um amor desinteressado e realista pelos homens, que conhece suas falhas e limites, mas que acredita em sua nobreza e bondade intrínsecas ─ e indica que esse humanismo é o que pode fazer a diferença nesses momentos de sacrifício.

Ao que tudo indica, estamos apenas no início do confinamento necessário para enfrentarmos essa pandemia. No horizonte, vislumbra-se tanto uma crise econômica (de magnitude sem precedentes na história) quanto política (cujos desdobramentos se encaminham para mais um processo de impeachment). Tempos sombrios, com certeza, virão.

Aproveitemos, então, para, na medida de nossas forças, cumprir nossas obrigações profissionais com zelo, exercer nossa solidariedade, bater panela e protestar nas redes sociais, colocar a leitura em dia... Quem sabe possamos chegar ao final desse período e dizer, como o narrador do livro, que aprendemos no meio do flagelo “que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar”?

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